sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"Quanto" você precisa ?

As várias facilidades materiais que nos são oferecidas pelo mundo atual são muito benéficas. Mas esses confortos, basicamente, não nos trazem a felicidade. Quando há uma circunstância agradável ligada a objetos materiais, isso traz uma sensação de prazer, mas simultaneamente a mente pode não estar tranqüila. E esse prazer não terá o poder de acalmar a mente.

Por outro lado, se, por exemplo, uma pessoa está tranqüila no nível mental, pode sobrepujar as ocorrências do nível material. Porque a experiência no nível mental é mais forte do que a do nível material. E o contrário não é verdadeiro.

Uma pessoa vê um sofrimento físico como algo com sentido, algo que significa um resgate, uma experiência, uma aprendizado. Outra pessoa vê apenas sofrimento na mesma situação. Isso gera duas experiências totalmente diferentes. Assim, a questão central é: você quer sofrimento ou prazer? Quer felicidade? Então, terá que analisar a realidade, e verá que o desenvolvimento material é importante, mas que o desenvolvimento espiritual é o fundamental para o bem estar.

O desenvolvimento, o conforto material é útil, mas é uma satisfação menor face ao desenvolvimento da espiritualidade.

Dalai Lama

domingo, 19 de setembro de 2010

Viver é fácil

 “A alegria do amor só é possível se você tiver conhecido a alegria de estar sozinho, porque só então você terá algo para compartilhar.
De outra forma, serão dois mendigos se encontrando, agarrando-se um ao outro, mas não poderão obter o êxtase. Criarão infelicidade para ambos, porque cada um irá esperar em vão, que o outro o preencha. E o outro está esperando a mesma coisa”.
(Osho)

Quando voce se conhece, consegue encontrar o verdadeiro amor dentro de si. Aquele, sem a capa de desejo...
Só assim depois disso, conseguira libertar-se dos complexos e conflitos criados por nos mesmos. Nesse ponto voce comeca a viver mais plenamente e a vida fica poéticamente mais simples, tudo fica facil, tudo flui, a verdade transparece e todas as pessoas reconhecem seu estado "de bem com a vida".

Viver simples é muito fácil, só nos criamos os problemas que existem, quando entendemos isso, simplesmente passamos a não criar mais problemas...
Afinal "É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração ..."

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Under the same sun ...

(...)
As vezes você se pergunta,
Há um paraíso no céu?
Porque não podemos parar de lutar?

Se todos vivemos sob o mesmo sol
Todos andamos sob a mesma lua
Então por que, por que não podemos viver unidos?

Às vezes penso que estou enlouquecendo
Estamos perdendo tudo o que tínhamos e ninguém parece se importar
Mas em meu coração isso não muda
Temos que reorganizar e trazer um pouco de amor ao nosso mundo

Será que realmente importa
Se há um paraíso lá em cima?
É claro que precisamos de um pouco de amor

Todos moramos sob o mesmo céu
Estamos todos olhando para as mesmas estrelas
Então porque, porque não podemos viver unidos?
Todos moramos sob o mesmo sol
Todos caminhamos sob a mesma lua
Todos vivemos sob o mesmo céu
Todos olhamos para as mesmas estrelas
Então por que, diga-me por que não podemos viver unidos?

Refletindo (4)

"Até o excesso da virtude, torna-se não virtude" - Aristóteles

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Meditar ?

A meditação, entre outros, é um meio para acalmar a mente e diminuindo a quantidade dos pensamentos que passam pela mente a cada minuto ou fazer com que o praticante não se apegue a nenhum deles - apenas os deixe passar.
Esses pensametos geralmente são lembraças do passado que nos fazem sentir as emoções associadas aos eventos que ocorreram ou projeções do futuro que causam ansiedade, medo, sofrimento, etc.
Em resumo, deixar a mente pensar sozinha só enche nossa cabeça de coisas frequentemente prejudiciais para nossa saúde psicológica e física. E impede que tenhamos uma leitura fiel da realidade que nos é apresentada, pois a enxergamos através de muita emoção e preconeito.
O objetivo da meditação é acalmar a mente e ajudar o individuo a focar sua atenção no presente.

Fatos científicos:
www.istoe.com.br


Em Campinas, no interior de São Paulo, 20 postos de saúde oferecem treinamentos de meditação gratuitos à população. Em São Carlos, também no interior paulista, alguns postos públicos de atendimento começarão a ofertar este ano sessões usando uma técnica conhecida como atenção plena (Mindfulness-Based Stress Reduction, ou MBSR, em inglês), desenvolvida pelo Centro Médico da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. É baseada em exercícios de respiração e consciência corporal que ajudam o indivíduo a focar as percepções no momento presente. “Queremos incluir a prática em 30 unidades de saúde”, diz Marcelo Demarzo, chefe do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos.

O Hospital Albert Einstein, em São Paulo, decidiu oferecer a prática tanto para pacientes quanto para funcionários, depois de testá-la por dois anos no setor de oncologia. “Nos pacientes em tratamento contra o câncer, notamos uma diminuição na ansiedade e maior disposição para enfrentar a doença”, afirma o médico Paulo de Tarso Lima. Ele é responsável pelo serviço de medicina integrativa no hospital, que promove a adoção de terapias complementares – entre elas, a meditação – para auxiliar no tratamento convencional.



Os resultados mais impressionantes vêm dos estudos que se propõem a investigar seus efeitos no cérebro. Um exemplo é o trabalho realizado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica “NeuroImage”. Após compararem o cérebro de 22 meditadores com o de 22 pessoas que nunca meditaram, eles descobriram que os praticantes possuem algumas estruturas cerebrais maiores do que as dos não praticantes. Especificamente, hipocampo, tálamo e córtex orbitofrontal. As duas primeiras estão envolvidas no processamento das emoções. E a terceira região, no raciocínio. “Sabemos que as pessoas que meditam têm uma habilidade singular para cultivar emoções positivas”, disse à ISTOÉ Eileen Luders, do Laboratório de Neuroimagem da universidade. “As diferenças observadas na anatomia cerebral desses indivíduos nos deram uma pista da razão desse fenômeno.”

“Meditadores têm habilidade singular para cultivar emoções positivas”








"Fatos científicos, só comprovam as verdades que muitos já sabiam"

Não se prenda aos fatos... sinta.



domingo, 12 de setembro de 2010

Darmapada - Dos Sábios ( 8 )

Em todas as partes homens bons se libertam,
deixando de procurar prazeres sensuais.
Atingido pela ventura ou pela dor,
o sábio nao se exalta e nem se deprime.

Refletindo (3)

"Considerar o mundo como sendo real é uma atitude brutal. Considera-lo como irreal é ainda mais selvagem"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carl Gustav Jung - Arquetipos e Inconsciente coletivo

Neste post vou colocar para discussão um assunto que estou estudando ultimamente junto com algumas indagações.
Convido a todos para uma viagem pela psicologia, budismo e fisica quantica.
Boa diversão.

O ego é o responsável por nossos sentimentos de identidade e continuidade e, do ponto de vista da própria pessoa, é encarado como sendo o centro da personalidade. O budismo procura justamente aniquilar o ego, essa falsa percepção de identidade. O ego não foi produzido pela natureza para seguir ilimitadamente os seus próprios impulsos arbitrários mas nos prende naquilo que achamos quem somos.
Frequentemente confundimos nossa situação ou estado de vida com quem realmente somos e por muitas vezes nos utilizamos das frases "mas eu sou assim", "é meu jeito". Essas são manifestações desesperadas de nosso ego tentar se manter vivo dentro de nós.

No inconsciente individual, ficam as experiências que foram reprimidas, suprimidas, esquecidas ou ignoradas, e também experiências muito fracas para marcar a consciência do individuo. É aí que se encaixam os Complexos, que são grupos organizados de sentimentos, percepções e memórias, que ficam no inconsciente, mas atuando de forma determinante no consciente, podendo atuar até mesmo como uma personalidade autônoma, usando a psique para seus próprios fins.

O inconsciente coletivo, é o alicerce de toda a estrutura da personalidade. Sobre ele estão erigidos o ego, o inconsciente individual e todas as outras aquisições individuais. Jung vê a personalidade como um produto do passado ancestral, sendo o homem moderno concebido e moldado pelas experiências acumuladas de gerações passadas, recuando até as origens obscuras e desconhecidas da humanidade. Segundo ele, o homem nasceu com muitas predisposições (legado de seus ancestrais) que dirigem sua conduta e determinam, em parte, aquilo de que ele tomará consciência e a que responderá em seu próprio mundo de experiências. Ou seja, uma personalidade coletiva, que atua seletivamente no mundo da experiência e é modificada e elaborada pelas experiências que recebe. Uma personalidade individual, nesse caso, seria o resultado da interação de forças internas e externas. Mas ele deixa espaço para a individualidade, pois se assim não fosse, não haveria lugar para a variação e o desenvolvimento. Jung, acreditava que o espírito era influenciado por uma energia superior inconsciente.
( Energia )

O conteúdo psíquico do inconsciente coletivo são os arquétipos. Que são uma forma de pensamento universal com carga afetiva, que é herdada. Os arquétipos são como diferentes “formas de bolo”, que dão características ao bolo. Eles dão origem as fantasias individuais e também às mitologias de todas as épocas. Por exemplo, todo mundo quer encontrar seu “par perfeito” ou alma gêmea, pode-se dizer que isto se resulta de um arquétipo, da figura de Adão e Eva, ou de outra, pois em todas as religiões existe uma história que ilustra a união entre “as polaridades”.
(O mito do amor perfeito)

Este conceito se propaga e por mais que qualquer pessoa negue, sempre existe um desejo ainda que inconsciente de se encontrar alguém muito especial que corresponda ao que esperamos. Esta é uma fantasia individual resultante de um mito. Jung nos diz que o conceito de arquétipo é muito mal compreendido, pois este não expressa uma imagem ou conteúdo definido, mas sim uma variação de detalhes e um motivo, mas nunca perdendo a configuração original. 

Todo arquétipo traz características positivas e negativas, por exemplo, você pode querer ser o príncipe da Branca de Neve, com o cavalo branco e tudo, mas também existe uma imagem e um medo de que este vire um sapo, ou que o romance acabe como o de Romeu e Julieta.

Estes arquétipos e muitos outros presentes em nós, como a figura materna, a figura do irmão ou da irmã, entre outros, não podem ser destruídos e permaneceram em nós por toda a nossa existência, mas necessitam ser constantemente trabalhados. As principais estruturas formadoras de nossa personalidade são arquétipos.

Bom, agora vamos falar um pouco sobre os símbolos, estes não podem ser comparados aos arquétipos, já que os arquétipos não tem um conteúdo definido. Nosso inconsciente se expressa basicamente pelos símbolos.

Os símbolos podem ser individuais ou coletivos. Jung se interessou mais pelos coletivos ou universais como: a estrela de Davi, a Cruz entre outros, em sua grande maioria religiosos. Um dos mais famosos símbolos é o Martelo de Thor, adotado por Hitler como Suástica. O Martelo de Thor (Deus do Trovão), é do tempo dos Víkings e simboliza a proteção divina contra o perigo. Mas como foi mal usado por Hitler, hoje vemos esse símbolo com medo e desaprovação. Para conseguir desprogramar esse estado, não basta saber a verdade, mas sim repeti-la várias e várias vezes até se reprogramar a mente.

Os símbolos podem ser nomes, imagens familiares entre outros, eles possuem um significado obvio, mas também trazem conotações específicas. A imagem, o nome ou outra coisa, só pode ser considerada símbolo quando evoca algo mais que seu simples significado.
Por exemplo, o nome de Jesus, não é apenas um nome, tornou-se símbolo, porque traz consigo muitas outras coisas, mesmo para quem não é um cristão. O nome Jesus traz um aspecto inconsciente, que não pode ser definido ou explicado plenamente. Assim são os símbolos.

O símbolo é algo dinâmico e vivo, que vai além do consciente. Eles podem ser encontrados nos sonhos com uma representação individual ou coletiva. Por isso, quando aparecerem símbolos em seus sonhos, procure saber o que eles representam para você, fazendo uma ponte para com a sua situação de vida. Jung dizia que como uma planta produz flores, assim também a psique cria os símbolos.

Símbolos, arquétipos e inconsciente coletivo, nos deixa várias portas abertas à diferentes interpretações. Um médico poderia dizer que tudo isto é transmitido geneticamente, um sociólogo, poderia dizer que é pelo meio-ambiente e a cultura que impõe esses conceitos desde cedo, ou ainda um espiritualista pode compreender isto como uma referência à imortalidade do espirito e à bagagem da alma em suas muitas viagens pelo planeta. 

Podemos agora iniciar uma discussão filosofica.
Se toda a experiencia da humanidade esta no inconsciente coletivo, buda no estado de nivana, ou seja, liberto de tudo o que é individual e conectado com a energia do todo, pode ter acessado o conhecimento contido nos símbolos e a partir desse ponto comecou a alterar a realidade?
Será nessa combinação, que nós humanos nos tornamos capazes de realizar milagres ?

Aguardo comentarios... rs.

"Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda"
.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Pensando juntos

Certa vez, o grande Dalai Lama disse que independente de religião ou filosofia, devemos nos reunir com outros que pensem iguais a nós. Essas reuniões são muito importantes para nos ajudar a reafirmar o que acreditamos e conversarmos sobre os temas da filosofia e sua aplicação na prática.

Extendendo;

Os encontros filosóficos propiciam um convívio saudável e estimulante entre amigos. Uma oportunidade para nos integrarmos cada vez mais.

O diálogo filosófico é dinâmico, interativo e nos leva a pensar.

E isso nos permite avaliar melhor nosso conhecimento e nossa ação no mundo.

Conversar, esclarecer conceitos, perguntar, ouvir, responder, tudo isso ajuda cada um a tomar consciência dos seus próprios pensamentos e a descobrir novas possibilidades.

Os encontros filosóficos, centrados no diálogo, nos reportam à Antiga Grécia, onde Sócrates convidava as pessoas a pensar com ele. Procurava despertar dentro de cada indivíduo a consciência do universal. Sócrates dizia que nada ensinava, apenas ajudava cada um a encontrar, por si mesmo, a Verdade procurada.

Por esta razão , a filosofia é inseparável de uma conduta, ou seja, não se pode abordar uma obra somente do exterior. Tem que vivenciá-la interiormente. E aí sim, levará a um aprimoramento do pensamento e, conseqüentemente, a uma definição da vida, de uma vida orientada em direção ao Ser.

É como regar o solo para que as sementes, que estão ocultas sob a terra, germinem e se transformem em árvores que darão sombra e fruto. Vamos nos encontrar e viver tudo isso juntos!

Seja na igreja, no templo, na sede, etc... Integre-se! Conviva! Estimule o Ser!

Assim, e somente assim, juntos, construiremos um mundo bem melhor.
(Celso Charuri).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Energia

A energia constitui o substrato básico do Universo.

Na física, energia é a propriedade de um sistema que lhe permite realizar um trabalho, podendo ser manifestada de várias formas (calorífica, cinética, elétrica, eletromagnética, mecânica, potencial, química, radiante) transformáveis umas nas outras. A energia não é criada, é transformada.

Esse infindável sistema de energia satura todas as coisas no Universo, animadas e inanimadas, envolvendo tudo num eterno processo de transformação, propagação e interação.

O budismo interpreta todo o Universo como uma única grande força vital — a Lei que rege e preserva a harmonia em todo o cosmo. “No mais profundo interior de todos os seres, existe a primacial força que faz com que vivam. A mesma força suporta a matéria inorgânica no sistema de harmonias e ritmos da grande existência cósmica.". No budismo, essa é a energia de que precisa toda vida, que cria e recria a existência, tanto a espiritual como a material.

Quando essa força se manifesta no mundo físico, aparece como um sistema que governa o mundo inorgânico, que torna possível a composição química e que controla as pulsações do Universo. Em outras palavras, as leis da física, da química e da astronomia são simplesmente particulares manifestações fenomenológicas da energia do cosmo. Da mesma forma, a força vital cria o mundo do espírito, cria a inteligência, dá força aos desejos e aos instintos e, assim, produz todas as variações da atividade mental e espiritual.

Tanto a energia física como a espiritual são faces diferentes da mesma energia primordial que sustenta todas as funções do Universo. Essa energia, em termos budistas, é chamada de energia vital. Falar em energia vital equivale a falarmos da essência fundamental do ser humano, assim como de todos os outros seres e do próprio Universo. Ao realizarmos a prática budista, verificamos de forma efetiva como podemos manifestar essa energia contida em nosso interior.

As ciências têm comprovado que os seres humanos utilizam uma pequena parte de seu potencial cerebral. Da mesma forma, muitas vezes, as pessoas não se dão conta da enorme quantidade de energia que possuem interiormente, limitando suas ações ao enfrentarem dificuldades e problemas. Em vez de reagirem, são arrastadas pelo pessimismo e acabam sucumbindo ao estresse, à depressão ou a outros males.

Para aumentar a energia física podemos nos valer de uma alimentação rica e saudável ou então exercitar o corpo. Mas, e quanto à nossa energia espiritual?

O objetivo da prática budista é elevar nosso estado de vida para que possamos canalizar nossas energias de forma plena e benéfica, tanto para nós próprios como para os outros.A energia interior de cada pessoa poderia ser comparada a um potente motor de um carro, mas que depende das rodas, que representam a ação concreta, e do sistema de direção, que corresponde à sabedoria inata.

Dessa forma, a diferença entre uma existência envolvida somente em sofrimentos e ilusões e uma vida conscientemente direcionada para a felicidade de si e das demais está na ampla manifestação da energia interior e, mais que isso, do seu correto direcionamento.

Daisaku Ikeda comenta: “Somos livres para escolher o caminho e a habilidade para seguir o certo é inata ao homem. A questão é como desenvolver a sabedoria potencial inerente à nossa força vital, a fim de que funcione para a existência e a criatividade no Universo. Se um ser humano possuir a habilidade para amar e confiar, mas se for fraca a força motivadora dentro dele, não estará apto a influenciar outros seres humanos quanto mais a vida humana como um todo. Em contrapartida, se uma pessoa tiver uma poderosa força motivadora, mas for assaltada pela dúvida, a suspeição e o antagonismo com relação a outras pessoas, será capaz de destruir a si própria e à vida humana como um todo. Quando descobrirmos como empregar a nossa força vital para a criação e apoio à existência — tanto no nível humano como no cósmico — e quando descobrirmos como viver em verdadeira harmonia com o Universo, a filosofia da unidade entre a vida com o Universo, a filosofia da unidade entre a vida subjetiva e o meio ambiente objetivo se tornará a grande prática e sabedoria da humanidade.”

Quando estamos vivos a energia nos mantém unos ao cosmos e, ao falecermos, torna-se a força que nos garante o renascimento.

As ações que realizamos em vida são portanto fundamentais para o renascimento. Após a morte, a energia permanece latente. As ações altruísticas são o que possibilitam ao praticante budista acumular energia vital para enfrentar as dificuldades e realizar suas atividades diárias e acumular um bom carma para a próxima vida.


www.estadodebuda.com.br

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Refletindo 2

Não é suficiente que a doutrina seja excelente.
A pessoa deve ter uma excelente atitude.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Amor ?

Se você ama agora e odeia depois. Se você ama quando quiser e odeia quando quiser.
Você ama quando tudo está bem e sem problemas e odeia quando alguma coisa dá errado no relacionamento entre você e a outra pessoa.

Se o seu amor muda dessa forma de tempos em tempos, de lugar em lugar e de situação para situação, então o que você chama de "amor" não é o amor verdadeiro mas sim desejo, cobiça ou luxúria - de nenhuma forma isso é amor.

A raiva, que é uma maneira impensada de desperdiçar a própria energia, quando ativa, se compara à água fervendo ou, quando não é expressa, ao preconceito. A raiva e os sentimentos derivados dela, impedem que o amor verdadeiro se manifeste.

O amor verdadeiro não possui um oposto ou um motivo velado.
Assim, a dicotomia amor-ódio não se aplica ao amor, que nunca irá se transformar em ódio à medida que as circunstâncias mudarem.

O verdadeiro amor é uma faculdade natural que está oculta sob o amontoado de desejo, raiva e ignorância. Ele não pode ser dado.

Nós precisamos encontrá-lo dentro de nós mesmos e cultivá-lo isento de egoísmo.

"Amar é exercício de descobrir o que o outro tem de mais lindo, mas também de mais vergonhoso. Amores perfeitos só existem nas projeções. Ou nos jardins..."
(Padre Fábio de Melo)


 .

Refletindo

"O homem é conhecido pelas suas obras e não pelas suas palavras."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Balde e a vida

Imagine um balde num poço de água preso a uma corda.

"Assim como é preciso uma força para puxar o balde para cima, mas ele desce facilmente, também os seres têm de despender grande esforço para se elevar até uma vida mais feliz, mas descem facilmente a situações penosas.
Assim como o balde se choca contra as paredes do poço ao subir e descer, as pessoas também são golpeadas dia a dia pelo sofrimento da dor e da mudança, e por se encolverem em processos fora de seu controle."

O importante é se manter consciente para saber se você está num momento de subida ou de descida.
Pense nisso.


(Como saber quem você é)

Surgimento dependente

Não existe causa sem efeito, nem efeito sem causa e muito menos causa sem pensamento.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Do dharmapada

Deixar de praticar o mal,
praticar apenas o bem,
purificar a própria mente:
este, o ensinamento dos budas.

Roda do Dharma (Nobre caminho óctuplo)

sábado, 10 de julho de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Concentração Correta


A pratica da Concentração Correta consiste em cultivar uma mente focada, capaz de se concentrar em uma única coisa. O ideograma chinês para concentração significa, literalmente, "manter a uniformidade", nem muito alto nem muito baixo, nem excitado nem entorpecido demais.

Existem dois tipos de concentração, a ativa e a seletiva. Na concentração ativa, a mente se detêm naquilo que está acontecendo no presente momento, acompanhando inclusive as mudanças que se apresentam. O poema que se segue, composto por um monge budista, descreve a concentração ativa:

O vento assobia no bambu,
E o bambu dança.
Quando o vento cessa,
O bambu fica imóvel.

O vento chega e o bambu lhe dá boas-vindas. O vento parte e o bambu deixa que ele se vá. O poema continua:
 
Um pássaro prateado
Voa sobre o lago outonal.
Depois que o pássaro se vai,
A superfície do lago não tenta
Reter a imagem do pássaro.

Enquanto o pássaro voa sobre o lago, seu reflexo é nítido. Depois que o pássaro se foi, o lago reflete as nuvens e o céu com idêntica nitidez. Quando praticamos a concentração ativa, aceitamos tudo o que aparece. Não pensamos nem desejamos qualquer outra coisa. Apenas estamos focados no momento presente com todo o nosso ser. O que vier será bem-vindo. Quando o objeto de nossa concentração desaparece, a nossa mente permanece clara e límpida, como um lago sereno.

Quando praticamos a "concentração seletiva", escolhemos um objeto e permanecemos com ele. Tanto na meditação sentada ou andando, seja a sós ou na companhia de outros, continuamos praticando. Sabemos que o céu e os pássaros estão lá, mas nossa atenção permanece focada no nosso objeto. Se o objeto de nossa concentração for um problema de matemática, não iremos ver televisão nem falar ao telefone. Abandonaremos tudo o mais e permaneceremos focados no objeto. Quando estamos dirigindo, as vidas dos passageiros no carro dependem de nossa concentração.

Não usamos a concentração para fugir de nosso sofrimento, mas nos concentramos para estar cada vez mais presentes. Quer caminhando, em pé ou sentados, concentrados, as pessoas percebem nossa estabilidade e nossa quietude. Quando vivemos cada momento profundamente, a concentração emerge naturalmente, o que por sua vez faz surgir a compreensão.

A Concentração Correta conduz a felicidade e também a Ação Correta. Quanto maior for o nosso grau de concentração, melhor a qualidade de nossa vida. As moças ouvem com freqüência suas mães dizerem que quando se concentrarem parecerão mais bonitas. É o tipo de beleza que surge quando estamos atentos presentes aos acontecimentos do momento. Quando uma jovem se movimenta de forma descuidada, ela não parecerá tão leve nem tão à vontade. A mãe dela talvez não use essas palavras, mas desejará incentivar a filha a praticar a Concentração Correta. Todos nós necessitamos de concentração.

Existem nove níveis de concentração meditativa. Os primeiros são as Quatro Dhyanas, que são concentrações no reino da forma. Os cinco níveis seguintes pertencem a dimensão sem-forma. Quando praticamos a primeira dhyana, ainda estamos pensando. Nos outros oito níveis, o pensar dá lugar a outras energias. A concentração na dimensão sem-forma também é praticada por outras tradições, mas fora do budismo sua finalidade geralmente é escapar do sofrimento, e não atingir a libertação que surge quando o sofrimento é compreendido. Quando você usa concentração para fugir de si mesmo ou de sua situação, está praticando a concentração errônea. Algumas vezes precisamos escapar de nossos problemas para termos um pouco de alivio, mas cedo ou tarde será preciso retornar e enfrentar aquilo que evitamos. A concentração mundana procura a fuga. A concentração supramundana busca a verdadeira libertação.

Praticar samadhi é viver com profundidade cada momento que nos é dado. Samadhi significa concentração. Para podermos nos concentrar, temos que estar conscientes, totalmente presentes e cônscios do que acontece. A atenção plena gera a concentração. Quando estamos profundamente concentrados, significa que estamos absortos no momento. Tornamo-nos o momento presente. É por isso que samadhi às vezes é traduzido como "absorção". A Atenção Plena Correta e a Concentração Correta nos elevam acima dos reinos dos prazeres dos sentidos e dos desejos, tomando-nos mais leves e mais felizes. Nosso mundo já não é tão grosseiro e pesado, o reino dos desejos, mas é o reino da materialidade sutil, ou o reino da forma.

No reino da forma, existem quatro níveis de dhyana. Através desses quatro níveis, a atenção plena, a concentração, a alegria, a felicidade, a paz e a equanimidade continuam a crescer. Depois da quarta dhyana, o praticante penetra em uma experiência mais profunda de concentração - as quatro dhyanas sem-formas - em que é possível enxergar a realidade com maior profundidade. Aqui, o desejo sensual e a materialidade revelam sua natureza ilusória e deixam de ser obstáculos. A pessoa começa finalmente a enxergar a natureza impermanente, impessoal e interdependente do mundo fenomênico. A terra, a água, o ar, o fogo, o espaço, o tempo, o nada, e as percepções, são todos interdependentes, necessitando uns dos outros para existir. Nada pode existir por si mesmo, independente do resto.

O objeto do quinto nível de concentração é o espaço ilimitado. Quando começamos a praticar este tipo de concentração, tudo parece ser espaço. Mas a medida que aprofundamos a prática, vemos que o espaço na verdade é composto de elementos "não-espaço", como terra, água, ar, fogo e consciência, e só existe neles. Considerando-se que o espaço é apenas um dentre os seis elementos que compõem todas as coisas materiais, concluímos que ele não tem existência independente. De acordo com os ensinamentos do Buda, nada tem existência separada. Portanto, o espaço e tudo o que existe é interdependente, sendo totalmente dependente dos outros cinco elementos.

O objeto do sexto nível de concentração é a consciência ilimitada. Inicialmente, vemos apenas consciência em tudo, mas aos poucos começamos a perceber que a consciência também é terra, água, ar, fogo e espaço. Tudo que é verdadeiro em relação ao espaço também é verdadeiro em relação à consciência.

O objeto do sétimo nível de concentração é o nada. Com a percepção normal, vemos flores, frutas, buIes e mesas, e achamos que eles existem independentemente uns dos outros. Mas quando observamos essa realidade mais profundamente, vemos que a fruta está dentro da flor, e que a flor, a nuvem e a terra estão dentro da fruta. Ao ultrapassarmos as aparências externas ou sinais, chegamos a "ausência de sinais". Primeiro pensamos que os membros de nossa família são separados uns dos outros, mas depois vemos que eles na verdade se contêm uns aos outros. Você é como é porque eu sou como sou. Percebemos a conexão íntima que existe entre as pessoas, e passamos a funcionar além dos sinais. Antigamente achávamos que o universo fosse povoado por milhões de entidades separadas. Agora entendemos a total "irrealidade dos sinais".

O oitavo nível de concentração é um nível onde não há nem percepção nem ausência de percepção. Reconhecemos que tudo é produzido por nossas percepções, que são, ao menos parcialmente, incorretas. Assim, entendemos que não devemos acreditar inteiramente em nossa forma anterior de ver o mundo, e buscamos um contato mais direto com a realidade. Certamente não podemos nos impedir de perceber, mas agora pelo menos já sabemos que "a percepção" significa a percepção de um sinal. Uma vez que já não mais acreditamos na realidade dos sinais, nossa percepção se transforma em sabedoria. Ultrapassamos os sinais (não-percepção), mas não nos transformamos em seres desprovidos de percepção (sem não-percepção).

O nono nível de concentração chama-se cessação. "Cessação", neste sentido, significa a cessação da ignorância contida em nossas sensações e percepções, e não a cessação das sensações e percepções em si. É aqui neste nível de concentração que emerge o insight, ou verdadeira compreensão. O poeta Nguyen Du disse: "Tão logo passamos a ver com nossos olhos e ouvir com nossos ouvidos, estamos abertos para o sofrimento." Ansiamos por um estado de concentração em que não possamos mais ver nem ouvir nada, um mundo onde não haja percepção. Desejamos nos tornar apenas um pinheiro com o vento cantando em seus galhos, porque achamos que os pinheiros não sofrem. E natural procurar um local onde não haja sofrimento.

No mundo da não-percepção, a sétima (manas) e a oitava (alaya) não-consciências continuam a funcionar como sempre, e nossa ignorância e formações internas permanecem intactas na consciência armazenadora, manifestando-se por fim na sétima não-consciência. Esta é a energia da ilusão que gera a crença em um eu separado, e distingue o eu do não-eu. Uma vez que a concentração da não-percepção não transforma a força de nossos hábitos, quando as pessoas emergem desta concentração seu sofrimento continua intacto. Mas quando o meditador consegue atingir o nono nível de concentração, o estágio de arhat, manas é transformado e as formações internas que residem na consciência armazenadora são finalmente purificadas. A maior de todas as formações internas é a ignorância da realidade da impermanência e o não-eu. Esta ignorância dá origem à ganância, ao ódio, à confusão, ao orgulho, à duvida e a todos os pontos de vista. Todas essas aflições juntas produzem uma guerra de consciência denominada manas, que sempre consegue discriminar o eu do outro.


Quando alguém pratica muito bem, o nono nível de consciência irradia sua luz sobre a realidade das coisas e transforma a ignorância. As sementes que antigamente faziam a pessoa ficar presa entre o eu e o não-eu são transformadas, alaya é libertada da restrição de manas, e manas já não tem mais a missão de construir um eu. Manas então se torna a Sabedoria da Igualdade, capaz de enxergar a interdependência e a interpenetração que fazem parte da natureza de tudo o que existe. Nessa altura, manas também já pode entender que a vida do outro é tão preciosa quanto a sua, porque não existe mais diferença entre o eu e o outro. Quando manas perde o controle da consciência armazenadora, esse repositório se torna a Sabedoria do Grande Espelho, que reflete tudo o que há no universo.

Quando o sexto nível de consciência é transformado, passa a se chamar Sabedoria da Observação Maravilhosa. A consciência mental continua a observar os fenômenos mesmo depois de se haver transformado em sabedoria, mas os observa de outra maneira, porque a mente tem consciência da natureza interdependente de tudo o que observa - portanto enxerga sempre o uno na multiplicidade, em todas as manifestações de nascimento e morte, de ir e vir etc. – sem ficar presa a ignorância. As cinco primeiras consciências se tornam a Sabedoria da Realização Maravilhosa. Nossos olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo, que antes nos faziam sofrer, tornam-se milagres que nos conduzem ao jardim da realidade. Desta forma, a transformação de todos os níveis de consciência se realiza sob a forma das Quatro Sabedorias. Nossas percepções e consciências errôneas são transformadas graças à pratica. No nono nível de concentração, todas as oito consciências estão ativas. A percepção e as sensações ainda estão lá, mas não são mais as mesmas de antes, porque ficaram livres da ignorância.

O Buda ensinou muitas práticas de concentração. Para praticar a Concentração da Impermanência, cada vez que olharmos para a pessoa amada, devemos vê-la como impermanente, e fazer o que estiver ao nosso alcance para que ela seja feliz agora. Se você achar que a pessoa amada é permanente, talvez pense que ela nunca vai melhorar. A compreensão da impermanência nos impede de ficarmos presos no sofrimento do desejo, do apego e do desespero. Devemos ver e ouvir tudo na vida sempre com essa perspectiva.

Para praticar a Concentração sobre o Não-Eu, entre em contato com a natureza de interdependência que existe em tudo. Isso lhe trará paz e alegria, e afastará o sofrimento. A pratica da Concentração no Nirvana ajuda a entrar em contato com a dimensão maior da realidade e a se tocar o não-nascimento e a não-morte. As Concentrações sobre a Impermanência, o Não-Eu e o Nirvana são suficientes para meditarmos durante toda nossa vida. Na verdade, as três são uma só. Quando tocamos profundamente a impermanência, também entramos em contato com o Não-Eu (a interdependência) e o Nirvana. Uma única concentração contem todas as outras. Não precisamos fazer todas.

O Buda não pode ser encontrado apenas no Gridhrakuta, o Pico dos Abutres. Se você escutasse no rádio que o Buda ia reaparecer no Monte Gridhrakuta, e que todo o mundo estava convidado para uma meditação andando com ele, todos os lugares de todos os aviões da Índia estariam ocupados, e talvez você ficasse frustrado porque também gostaria de participar. Mas mesmo que você tivesse a sorte de conseguir uma reserva em um vôo, não seria possível praticar a meditação andando com o Buda. Haveria uma multidão grande demais, na qual a maioria das pessoas não saberia a prática de inspirar e expirar com atenção e permanecer centrada no momento presente. Então, de que serviria ir até lá?

Contemple a sua intenção. Você quer atravessar metade do mundo só para depois poder dizer que esteve com o Buda? Muitas pessoas desejam exatamente isto. Chegam ao local de peregrinação totalmente incapazes de estar no momento presente. Depois de alguns minutos olhando o lugar, elas correm para outro local. Tiram fotos para provar que estiveram lá, ansiosas para voltar para casa e mostrar aos amigos. "Eu estive lá, está vendo? Tenho provas disso. Este aqui sou eu, em pé ao lado do Buda." Este com certeza seria o desejo da maioria das pessoas presentes lá. A grande maioria não consegue caminhar com o Buda, nem permanecer presente no aqui e agora. Elas só querem dizer: "Eu estava lá, e este aqui sou eu, ao lado do Buda." Mas não e verdade. Elas nunca estiveram lá. E aquele não e o Buda. "Estar lá" e apenas um conceito, e o Buda da foto e apenas uma aparência. Não se pode fotografar o verdadeiro Buda, nem mesmo com a máquina fotográfica mais cara do mundo.

Se você não tiver a oportunidade de ir ate a Índia, então, por favor, pratique andando em casa, e você pode segurar realmente a mão de Buda enquanto caminha. 
Apenas caminhe, com paz e felicidade, e o Buda estará ao seu lado. 
Aquele que vai até a Índia e retorna com sua foto ao lado do Buda não viu o verdadeiro Buda. 
Você tem dentro de si a realidade; ele tem apenas uma imagem. 
Não corra por aí feito um louco, atrás de oportunidades para tirar fotografias. 
Entre em contato com o verdadeiro Buda. Ele está sempre disponível. 
Tome a mão dele e pratique a meditação andando. Quando conseguir tocar a dimensão maior, estará caminhando com o Buda. 
A onda não precisa morrer para se tornar água, porque ela sempre foi água. 
Esta é a Concentração do Sutra do Lótus. 
Viva cada momento de sua vida profundamente, e entre em contato com a dimensão maior quando estiver caminhando, comendo, bebendo ou contemplando a estrela da manhã.


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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Atenção Correta

A Atenção Plena Correta está sempre no âmago de todos os ensinamentos de Buda. Tradicionalmente, a Atenção Plena Correta é a sétima etapa do Caminho Óctuplo. Quando a Atenção Plena Correta está presente, as Quatro Nobres Verdades e os outros sete componentes do Caminho Óctuplo também se fazem presentes.
Quando estamos conscientes, nosso pensar é o Pensamento Correto e o falar, a Fala Correta, e assim por diante. A Atenção Plena Correta é a energia que nos traz de volta para o momento presente. Cultivar a atenção plena significa cultivar o Buda interior, cultivar o Espírito Santo.

De acordo com a psicologia budista, a atenção tem a característica de universalidade, o que significa que estamos sempre dando atenção a algo. Nossa atenção pode ser "adequada", ou seja, estamos inteiramente no momento presente ou pode ser "inadequada", o que ocorre quando estamos atentos a algo que nos afasta do aqui e agora. Um bom jardineiro sabe como obter lindas flores usando esterco. A Atenção Plena Correta tudo aceita, sem julgar nem reagir. É inclusiva e amorosa. Sua prática consiste em buscar formas para conseguir manter a atenção adequada durante todo o dia.

A palavra sânscrita que designa atenção plena, smriti, significa "lembrar-se". A atenção plena consiste em lembrar-se constantemente de voltar ao momento presente. O ideograma chinês para a atenção plena tem duas partes: a parte superior significa "agora" e a parte inferior "mente" ou "coração." O Primeiro Milagre da Atenção Plena é estar presente e ser capaz de entrar em contato profundo com o céu azul, a flor ou o sorriso de nosso filho.

O Segundo Milagre da Atenção Plena é fazer com que o outro - o céu, a flor ou nosso filho - também esteja presente. No poema épico vietnamita Conto de Kieu, a heroína volta ao apartamento de seu amado, Kim Trong, e o encontra dormindo em sua escrivaninha, com a cabeça sobre uma pilha de livros. Kirn Trong ouve os passos de Kieu mas, semi-adormecido, pergunta: "Você está realmente aqui, ou estou sonhando?" Kieu responde: "Agora temos a oportunidade de ver-nos com clareza. Mas se não vivermos este momento profundamente, ele não terá passado de um sonho." Você e seu amado estão aqui juntos. Têm a oportunidade de se olharem profundamente. Mas se não estiverem completamente presentes, tudo não passará de um sonho.

O Terceiro Milagre da Atenção Plena é nutrir o objeto de sua atenção. Quando foi a última vez que olhou nos olhos de sua amada e perguntou: "Quem é você, minha querida?" Não se satisfaça com uma resposta superficial. Pergunte novamente: "Quem é você, que assumiu o meu sofrimento como seu, minha felicidade como sua, minha vida e morte como suas? Meu amor, por que razão você não é uma gota de orvalho, uma borboleta ou um pássaro?" Pergunte com todo o seu ser. Se não prestar a devida atenção à pessoa que ama, estará cometendo uma espécie de assassinato. Quando estiverem juntos fazendo alguma coisa, e se perderem em seus próprios pensamentos, cada um presumindo que sabe tudo sobre o outro, na verdade um estará morrendo lentamente. Mas com atenção plena será capaz de fazer renascer uma flor que ia murchar. "Eu sei que você está aqui, ao meu lado, e isso me faz feliz." Através da atenção, você será capaz de descobrir fatos novos e maravilhosos da amada, suas alegrias, seus talentos ocultos, suas aspirações mais profundas. Se você não praticar a atenção apropriada, como pode dizer que a ama?

O Quarto Milagre da Atenção Plena é aliviar o sofrimento de outra pessoa. "Eu sei que você sofre, e é por isso que estou aqui." Pode dizer isso com palavras ou simplesmente pela forma como olha para a pessoa. Se não estiver realmente presente, ou se ficar pensando em outras coisas, o milagre do alívio do sofrimento não se realizará. Em momentos difíceis, se tiver um amigo realmente presente ao seu lado, saberá que é um privilegiado. Amar significa nutrir o outro com atenção. Quando se pratica a Atenção Plena Correta, nós e o outro estamos presentes aqui e agora. "Querida, eu sei que você está aqui. Sua presença é preciosa para mim." Se você não demonstra isto quando estão juntos, no dia em que ela morrer ou sofrer um acidente, você chorará e lamentará o fato de antes do acidente não ter sabido se realmente foi feliz com ela.

Quando alguém está próximo da morte, se nos sentarmos ao seu lado com uma atitude estável e sólida, já será uma enorme ajuda para que esta pessoa possa abandonar esta vida com certa facilidade. Nossa presença será como um mantra, a fala sagrada que tem efeito transformador. Quando seu corpo, sua fala e sua mente estão em perfeita unicidade, o mantra fará efeito antes mesmo que se pronuncie uma única palavra. Os primeiros quatro milagres da atenção plena pertencem ao primeiro aspecto da meditação, shamatha - parar, acalmar-se, descansar e curar-se. Depois que você conseguir se acalmar e parar de se dispersar, sua mente ficará autofocalizada e você estará pronto para a contemplação profunda.

O Quinto Milagre da Atenção Plena é a contemplação profunda, que também é o segundo aspecto da meditação. Relaxado e concentrado, você está realmente preparado para olhar em profundidade. Você irradia a luz da atenção plena sobre o objeto que observa, e ao mesmo tempo irradia a luz da atenção plena para si mesmo. Observa o objeto de sua atenção e ao mesmo tempo enxerga o conteúdo da própria consciência armazenadora que está repleta de jóias preciosas.


O Sexto Milagre da Atenção Plena é a compreensão. Quando entendemos algo, nós dizemos: "Ah, sim, estou vendo." Vemos alguma coisa que não víamos antes. Ver e compreender são processos que surgem dentro de nós. Ao usar a atenção, entramos em contato com o momento presente, profundamente, e podemos ver e ouvir com clareza. Isso gera frutos, que são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar a dor e trazer alegria. Quando você entende alguém, não consegue deixar de amar esta pessoa. A compreensão é o verdadeiro alicerce do amor.

O Sétimo Milagre da Atenção Plena é a transformação. Quando praticamos a Atenção Plena Correta, entramos em contato com os elementos curadores e renovadores da vida, e começamos a transformar a nossa dor e o sofrimento do mundo. Passamos a desejar vencer um hábito, como, por exemplo, o hábito de fumar, em prol da saúde de nosso corpo e nossa mente.
Quando começamos a praticar, a força de nossos hábitos é mais forte do que a atenção plena, por isso não esperamos conseguir parar de fumar de um momento para outro.
Mas na verdade só precisamos ter consciência de estar fumando no momento em que fumamos. Ao prosseguir na prática, olhando profundamente e observando os efeitos que o fumo tem sobre a mente, o corpo, a família e a comunidade, adquirimos a determinação de parar.
Não é fácil, mas a prática da atenção plena nos ajuda a ver com clareza tanto o desejo como seus efeitos, e finalmente encontramos uma forma de parar. Nesse processo, a Sangha é importante. Um homem que visitou Plum Village vinha tentando parar de fumar há vários anos, mas não conseguia. Em Plum Village ele conseguiu parar logo no primeiro dia, porque a energia do grupo é muito forte. "Ninguém está fumando aqui, por que eu iria fumar?" Podemos levar anos para transformar a força de um hábito, mas quando conseguimos, detemos a roda do ciclo vicioso do sofrimento e confusão que vem se prolongando há tantas vidas.

Praticar os Sete Milagres da Atenção Plena nos ajuda a levar uma vida mais feliz e saudável, transformando o sofrimento e conquistando paz, alegria e liberdade.

No Discurso Os Quatro Estabelecimentos da Atenção Plena, o Buda propõe quatro objetos para a prática da atenção plena: o corpo, as sensações, a mente e os objetos da mente.
Os Quatro Estabelecimentos da Atenção Plena são o alicerce de nossa casa. Sem eles, a casa fica abandonada. Não há ninguém para varrer, limpar ou arrumar. Nosso corpo fica maltratado, os sentimentos repletos de sofrimento e a mente uma pilha de aflições. Quando estamos realmente em casa, nosso corpo, mente e sensações são um local de refúgio para nós e para os outros.

O primeiro estabelecimento é "a atenção plena do corpo no corpo". Muitas pessoas detestam seus corpos. Acham que o corpo é um obstáculo, e querem maltratá-lo. Quando a irmã Jina, uma monja de Plum Village, ensina ioga, ela sempre começa dizendo: "Vamos tomar consciência de nossos corpos. Inspirando, eu tenho consciência de estar em meu corpo. Expirando, eu sorrio para meu corpo." Praticando desta forma, nós renovamos o conhecimento do corpo e fazemos as pazes com ele. No Kayagatasati Sutta, o Buda oferece vários métodos para nos ajudar a ter consciência do que acontece no corpo. Passamos a observar de forma não dualista, estando presentes no corpo durante a observação. Começamos prestando atenção a todas as posições e movimentos do corpo. Quando nos sentamos, percebemos que estamos sentados. Quando ficamos de pé, quando caminhamos ou quando nos deitamos, sabemos que estamos de pé, caminhando ou deitados. Quando praticamos desta forma, a atenção plena está presente. Esta prática é chamada "simples reconhecimento".

A segunda forma que o Buda nos ensinou para praticar a atenção plena ao corpo no corpo é reconhecer todas as partes de nosso corpo, do alto da cabeça até as solas dos pés. Se temos cabelo louro, reconhecemos este fato e sorrimos para isto. Se o cabelo é grisalho, também reconhecemos este fato e sorrimos. Observamos se nossa testa está relaxada ou se tem sulcos. Com atenção, passamos pelo nariz, boca, braços, coração, pulmões, sangue, e assim por diante. O Buda comparou a prática de reconhecer as trinta e duas partes do corpo a um fazendeiro que vai até o celeiro, pega um saco de cereais, coloca-o no chão e esparrama seu conteúdo, passando a separar o que é arroz, o que é feijão, o que é gergelim, e assim por diante. Desta forma, reconhecemos os olhos como sendo os nossos olhos, e os pulmões como os nossos pulmões. Podemos fazer isso durante a meditação sentada ou mesmo deitados. Podemos varrer o corpo com a atenção plena durante meia hora, observando cada parte e sorrindo para ela. O amor e o cuidado contidos nesta meditação têm enorme poder de cura.

O terceiro método sugerido pelo Buda para a prática da atenção plena ao corpo no corpo é observar os elementos dos quais o corpo é composto: terra, água, fogo e ar. "Ao inspirar, vejo o elemento terra em mim. Ao expirar, sorrio para o elemento terra em mim." O elemento terra consiste em tudo o que é sólido. Quando vemos o elemento terra dentro e fora de nós, percebemos que realmente não existem divisões entre nós e o resto do universo. A seguir, reconhecemos o elemento água dentro e fora de nós. "Inspirando, tomo consciência do elemento água em meu corpo." Meditamos sobre o fato de que nosso corpo é composto de mais de setenta por cento de água. Depois disso, reconhecemos o elemento fogo, que representa o calor, dentro e fora de nós. Para que a vida seja possível, tem que haver calor. Praticando isto, percebemos novamente que os elementos dentro e fora do corpo pertencem à mesma realidade, e que não estamos realmente confinados pelo corpo. Estamos em toda a parte.

O quarto elemento do corpo é o ar. A melhor forma de experimentar o elemento ar é praticar a respiração consciente. "Inspirando, eu sei que estou inspirando. Expirando, eu sei que estou expirando." Depois de dizer isso, podemos resumir dizendo simplesmente "Inspirando" e "Expirando". Não tentamos controlar a respiração. Quer a inspiração seja longa ou curta, rasa ou profunda, nós apenas respiramos naturalmente e irradiamos a luz da atenção plena sobre ela. Ao fazer isto, percebemos que, de fato, nossa respiração se torna naturalmente mais lenta e mais profunda. "Ao inspirar, minha inspiração torna-se profunda. Ao expirar, minha expiração torna-se lenta."

Agora podemos praticar o "Profundo/Lento". Não precisamos mais fazer nenhum esforço. A respiração se torna mais lenta e mais profunda por si mesma, e nós apenas reconhecemos o fato.

Mais tarde, você perceberá que se tornou mais calmo e que está mais descansado. "Inspirando, sinto-me calmo. Expirando, sinto-me descansado. Não estou mais lutando. Calmo e descansado." Então: "Ao inspirar, eu sorrio. Ao expirar, eu solto todas as minhas preocupações e ansiedades. Sorrir/soltar." Conseguimos sorrir para nós mesmos e soltar as preocupações. Existem mais de trezentos músculos no rosto, e quando sabemos como respirar e sorrir, estes músculos podem relaxar. Essa é a "ioga da boca". Ao sorrir, soltamos todas as nossas sensações e emoções. A última prática é: "Inspirando, estou no momento presente. Expirando, sei que este momento é maravilhoso. Momento presente/momento maravilhoso." Nada é mais precioso do que estar no momento presente, totalmente vivo e perfeitamente consciente.

Inspiro, expiro
Profunda, lenta
Calma, à vontade
Sorriso, alívio
Momento presente, momento maravilhoso.

Se você usar este poema durante a meditação sentada ou caminhando, ele se revelará muito nutritivo e curador. Pratique cada linha pelo tempo que desejar.

Outra prática que ajuda a ter consciência da respiração é contar. Ao inspirar, conte "um" e ao expirar conte "um" de novo. A seguir, "Dois/dois", "Três/três", até chegar a dez. Depois disso, inverta o sentido, contando "Dez/ dez", "Nove/nove", e assim por diante, até voltar ao um. Se não se perder no caminho, saberá que tem boa concentração. Se por acaso se perder, volte ao "um" e recomece. Relaxe, é apenas um jogo. Quando conseguir contar até o fim, pode abandonar os números, e apenas dizer "inspirar" e "expirar". A respiração consciente é um grande prazer. Quando descobri o Discourse on the Full Awareness of Breathing, achei que eu era a pessoa mais feliz do mundo. Estes exercícios nos foram transmitidos por uma comunidade que os vem praticando há mais de 2.600 anos.


www.viverconsciente.com

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Esforço Correto

O Esforço Correto, é um tipo de energia que nos ajuda a percorrer mais rápido o Nobre Caminho Óctuplo. Se formos diligentes na procura de posses, sexo ou comida, isso será o esforço errôneo. Se trabalharmos vinte e quatro horas por dia para obter lucro ou fama, ou para fugir da dor, isso também constitui esforço errôneo. Vistos de fora, podemos parecer diligentes, mas não estaremos praticando o Esforço Correto. A mesma coisa se aplica à nossa prática de meditação. Podemos parecer diligentes na prática, mas se ela nos afasta da realidade ou daqueles a quem amamos, não é o Esforço Correto. Quando praticamos a meditação sentada ou andando, de forma a fazer nosso corpo e nossa mente sofrerem, esse esforço não representa o Esforço Correto nem está baseado na Compreensão Correta. Nossa prática deve ser inteligente, baseada na real compreensão do ensinamento. Não é porque praticamos muito que podemos dizer que praticamos o Esforço Correto.

Havia um monge na Dinastia Tang na China que meditava dia e noite. Ele achava que praticava mais e melhor do que qualquer outra pessoa, e se orgulhava disso. Sentava-se como uma pedra, dia após dia, mas seu sofrimento não se transformava. Um dia um mestre perguntou: "Por que você se senta em meditação por tanto tempo?" e o monge respondeu: "Para me tornar um Buda!" O mestre apanhou um ladrilho e começou a polir o ladrilho com força. O monge perguntou o que estava fazendo, e o mestre respondeu: "Estou fazendo um espelho." O monge então perguntou: "Como pode transformar um ladrilho em espelho?" e o mestre respondeu: "Como você pode se transformar em Buda apenas sentado?"

As quatro práticas que costumam estar associadas ao Esforço Correto são:
(1)     Impedir o crescimento e o desenvolvimento das sementes indesejáveis contidas em nossa consciência armazenadora.
(2)     Ajudar as sementes indesejáveis já desenvolvidas a retornar à consciência armazenadora.
(3)     Encontrar formas de irrigar as sementes sadias que ainda não cresceram em nossa consciência armazenadora, incentivando o mesmo processo aos amigos.
(4)     Nutrir as sementes sadias que já cresceram, para que permaneçam em nossa consciência mental, tornando-se cada vez mais fortes. Isso é chamado de Esforço Correto Quádruplo.

Uma semente "não-sadia" é algo que não conduz à libertação nem ao caminho. Em nossa consciência armazenadora existem muitas sementes que não são benéficas para a nossa transformação, e se forem regadas ficarão cada vez mais fortes. Quando a ganância, o ódio, a ignorância e os pontos de vista incorretos aparecem em nós, se nós os observarmos com a Atenção Plena Correta, mais cedo ou mais tarde eles perderão sua força e retornarão à consciência armazenadora.

Quando as sementes sadias ainda não cresceram, podemos regá-las e ajudá-las a penetrar na mente consciente. Essas sementes de felicidade, amor, lealdade e reconciliação precisam ser regadas todos os dias. Ao regá-las, sentiremos grande alegria, o que as encorajará a permanecer mais tempo conosco. A quarta prática do Esforço Correto é a manutenção em nossa consciência das formações mentais saudáveis.

O Esforço Correto Quádruplo é alimentado pela alegria e pelo interesse. Se sua prática não lhe traz alegria, você não está praticando corretamente. O Buda perguntou ao monge Sona: "É verdade que antes de se tornar monge você foi músico?" e Sona respondeu que sim. O Buda então perguntou:

-          O que acontece quando as cordas do instrumento estão frouxas?

-          Quando tocamos a corda, não sai som algum - respondeu Sona.

-          E o que acontece quando a corda está esticada em demasia?

-          Ela rebenta.

-          A prática do caminho é a mesma coisa - disse o Buda. – Cuide de sua saúde. Tenha alegria. Não se force a fazer nada de que não seja capaz.

Precisamos ter consciência de nossos limites psicológicos e físicos. Não devemos nos forçar a práticas de ascetismo nem tampouco devemos nos perder nos prazeres dos sentidos. O Esforço Correto está no Caminho do Meio, entre os dois extremos da austeridade e da indulgência sensual.

O ensinamento dos Sete Fatores do Despertar também é parte da prática do Esforço Correto. A alegria é um dos Fatores do Despertar, e fica bem no âmago do Esforço Correto. O bem-estar, outro Fator do Despertar, também é essencial ao Esforço Correto. Na verdade, não apenas o Esforço Correto mas também a Atenção Plena Correta e a Concentração Correta necessitam de alegria e bem-estar para poderem se desenvolver. O Esforço Correto não implica nos forçarmos a coisa alguma. Se temos alegria, bem-estar e interesse, nosso esforço será exercido naturalmente. Quando ouvirmos o sino chamando para a meditação, teremos energia para participar dela, porque para nós a meditação é alegre e interessante. Se não tivermos energia para praticar a meditação andando nem a meditação sentada, é porque estas práticas não nos trazem alegria nem nos transformam, ou porque ainda não conseguimos enxergar seus benefícios.

Mestre Guishan disse: "O tempo corre como uma flecha. Se não vivermos em profundidade, desperdiçaremos nossa vida." Alguém que consegue dedicar sua vida à prática e que tem a oportunidade de conviver com um mestre e com amigos que praticam, é alguém que desfruta de uma maravilhosa oportunidade, capaz de lhe proporcionar muita felicidade. Se não tivermos o Esforço Correto, é porque ainda não encontramos a forma de praticar adequada para nós, ou então porque ainda não sentimos necessidade de praticar intensamente. Uma vida vivida consciente é uma coisa maravilhosa.

"Ao acordar hoje de manhã eu sorri:
Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor.
Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento de meu dia,
e olhar para todos os seres com os olhos da compaixão."


Ao recitar esse verso, estamos armazenando energia para viver nosso dia com sabedoria. Vinte e quatro horas são um tesouro pleno de possibilidades. Se desperdiçarmos estas horas, estamos desperdiçando nossa vida. A prática correta é sorrir tão logo despertamos, reconhecendo esse novo dia como mais uma oportunidade para praticar. É nossa responsabilidade não desperdiçar nenhuma oportunidade. Quando contemplamos todos os seres com um olhar de amor e compaixão, ficamos felizes. Com a energia da atenção plena, varrer o chão, lavar os pratos ou meditar andando são coisas extremamente preciosas.

O sofrimento costuma nos conduzir à prática. Quando estamos ansiosos ou tristes, ao constatarmos que as práticas nos aliviam, deseja-mos praticar mais para nos sentirmos melhor. É preciso muita energia para contemplar o sofrimento e investigar suas causas, mas é esta compreensão que nos diz como colocar um ponto final no sofrimento e qual o caminho necessário para conseguir isso. Quando somos capazes de acolher o sofrimento, compreendemos suas origens, e vemos que é possível pôr um fim nele, porque existe um caminho para se fazer isto. Nossa dor está no centro de tudo. Quando olhamos para o esterco, enxergamos as flores. Quando olhamos para um mar de fogo, vemos um lótus. O caminho que não foge de nós mas que, ao contrário, recebe a nossa dor, é o caminho que nos conduz à libertação.

Nem sempre é necessário lidar diretamente com o sofrimento. Às vezes podemos permitir que ele permaneça adormecido em nossa consciência armazenadora, usando essa oportunidade para, através da atenção plena, entrar em contato com os elementos curadores e renovadores que existem em nós e ao nosso redor. Eles se encarregarão de tomar conta da dor, como anticorpos lutando contra elementos estranhos que penetraram na corrente sangüínea. Quando sementes não-sadias começam a crescer, temos que fazer algo a respeito, mas caso permaneçam adormecidas, temos que ajudá-las a continuar dormindo pacificamente, para serem transformadas na base.

Com a Compreensão Correta, enxergamos o caminho a ser seguido, e isso nos confere fé e energia. Se nos sentirmos bem depois de praticar por uma hora a meditação andando, teremos a convicção necessária para continuar praticando. Ao vermos como este tipo de meditação traz paz para as outras pessoas, nós também teremos mais fé nessa prática. Com paciência, descobriremos as alegrias que a vida nos oferece, e teremos mais energia, interesse e diligência.

A prática do viver consciente deve ser alegre e prazerosa. Se você inspira e expira com alegria e paz, isto é o Esforço Correto. Se você se reprime, ou se não gosta da prática, provavelmente não está praticando o Esforço Correto. Examine sua forma de praticar. Veja o que lhe proporciona paz e felicidade em todas as ocasiões. Tente passar algum tempo numa Sangha, onde irmãos e irmãs estão criando um campo de energia consciente capaz de tornar a sua prática mais fácil. Trabalhe com um mestre e com os amigos, visando transformar seu sofrimento em compaixão, paz e compreensão, fazendo isso de uma forma alegre e fácil. Isto é Esforço Correto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena

Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena ajudam a proteger o corpo, a mente, a família e a sociedade.

O primeiro Treinamento da Atenção Plena versa sobre proteger as vidas dos seres humanos, animais, vegetais e minerais. Proteger outros seres significa proteger a nós mesmos.

O segundo treinamento versa sobre impedir a exploração de seres humanos, de outros seres vivos e da natureza. Relaciona-se com a prática da generosidade.

O terceiro tem a ver com proteger crianças e adultos do abuso sexual, e preservar a felicidade dos indivíduos e das famílias. Muitas famílias já foram separadas devido à má conduta sexual. Quando praticamos o Terceiro Treinamento da Atenção Plena, protegemos a nós mesmos, as famílias e os casais, porque ajudamos os outros a se sentirem seguros.

O quarto Treinamento da Atenção Plena versa sobre praticar a fala amorosa e a escuta atenciosa.

O quinto Treinamento da Atenção Plena é sobre consumir de maneira consciente.

A prática dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena é uma forma de amor e de doação. Assegura a boa saúde e a proteção da nossa família e da sociedade. Se vivermos de acordo com eles, estaremos protegendo a nós mesmos e as pessoas que amamos.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Meio de Vida Correto

Para praticar o Meio de Vida Correto, é necessário encontrar uma forma de ganhar a vida que não represente uma transgressão aos ideais de amor e solidariedade. A forma pela qual você se sustenta pode ser uma expressão do seu ser mais profundo ou pode ser uma fonte de sofrimento para você e para os outros.

Os sutras costumam dizer que o Meio de Vida Correto é ganhar a vida sem precisar transgredir nenhum dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena: não vender armas, não vender escravos, não vender carne, álcool, drogas, nem venenos, não fazer profecias e nem dizer a sorte. Monges e monjas devem tomar cuidado para não fazerem aos leigos pedidos exagerados em relação aos quatro requisitos básicos, que são remédios, alimentos, roupas e hospedagem, e para não possuírem coisas materiais além de suas necessidades imediatas.


Ao procurarmos estar conscientes em todos os momentos, tentamos ter uma ocupação que seja benéfica para os seres humanos, os animais, as plantas e a terra ou, pelo menos, uma ocupação que prejudique pouco. Vivemos em uma sociedade na qual os empregos costumam ser difíceis de obter, mas se nosso emprego prejudicar a vida de alguma forma, então devemos procurar outro.
Nossa atividade diária tanto pode alimentar a compreensão e a solidariedade quanto pode ajudar a destruí-las. Temos sempre que ter consciência das consequências, imediatas ou remotas, do nosso trabalho.
Muitas indústrias modernas são prejudiciais aos seres humanos e à natureza, mesmo aquelas que produzem alimentos, e os pesticidas químicos e fertilizantes destróem o meio ambiente.

Por isso a prática do Meio de Vida Correto é muito difícil para os fazendeiros. Se não usarem produtos químicos, talvez tenham dificuldades para se manter comercialmente competitivos. Este é apenas um entre muitos exemplos. Ao exercer sua profissão, respeite os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Um trabalho que de alguma forma envolva morte, roubo, má conduta sexual, mentiras ou venda de drogas ou álcool não é um Meio de Vida Correto. Se sua empresa polui os rios ou o ar, trabalhar neste lugar não é um Meio de Vida Correto. Fabricar armas ou lucrar com as superstições dos outros também não são Meios de Vida Corretos. As pessoas têm superstições e acreditam que seu destino está escrito nas estrelas ou na palma das mãos. A verdade é que ninguém pode ter a certeza absoluta sobre o que acontecerá no futuro, e ao praticar a atenção plena adquirimos o poder de alterar o destino previsto pelos astrólogos. Além disso, as profecias contribuem para que fatos preditos acabem se tornando realidade.

Compor ou executar obras de arte também pode ser um meio de sustento. Um compositor, escritor, pintor, músico, bailarino ou ator têm efeito direto na consciência coletiva. Qualquer obra de arte é, em grande parte, um produto da consciência coletiva.
Portanto o artista deve praticar a atenção plena para que se trabalho ajude aqueles que entrem em contato com ele a praticar também a atenção plena. Um jovem que queria aprender a desenhar flores de lótus foi a um mestre e pediu para ser seu aprendiz. O mestre o conduziu até um lago de lótus e o convidou a se sentar ali. O jovem viu as flores desabrochando quando o sol estava alto e observou os botões se fechando quando a noite chegava. Na manhã seguinte, fez a mesma coisa. Quando uma flor de lótus murchou e suas pétalas caíram na água, ele observou o caule, o estame e o restante da flor, e depois passou a observar outra flor. Fez isso durante dez dias. No décimo primeiro dia, o mestre preguntou: “você está pronto?” e ele respondeu: “vou tentar”. O mestre lhe deu um pincel, e apesar de ter um estilo infantil, o jovem desenhou um lótus absolutamente lindo. Ele havia se tornado o lótus e o desenho simplesmente brotou de dentro dele.

A ingenuidade em matéria técnica era evidente, mas uma beleza profunda estava retratada ali. O Meio de Vida Correto não é apenas uma questão de escolha pessoal. Ele representa o nosso carma coletivo. Por exemplo, se sou um professor primário, e acho que ensinar as crianças a ter mais amor e compreensão é uma grande profissão, recusaria se alguém me pedisse para parar de ensinar e me transformasse, por exemplo, em um açougueiro. Mas ao meditar na interdependência das coisas, vejo que o açougueiro não é o único responsável pela matança de animais. Talvez a nossa opinião seja a de que o modo de vida do açougueiro é errado e o nosso é o certo, mas se nós não comêssemos carne ninguém precisaria matar animais. O Meio de Vida Correto, na verdade, é uma questão coletiva. O trabalho de cada pessoa afeta as outras. Os filhos do açougueiro podem se beneficiar com o professor, mas os filhos do professor, que comem carne, também são responsáveis pelo sustento do açougueiro.

Vamos imaginar que um fazendeiro que se sustenta vendendo carne bovina queira receber os Cinco Treinamentos da Plena Consciência. À luz do primeiro treinamento, ele começa a se perguntar o que tem feito para proteger a vida. Reflete que proporcionou ao seu gado as melhores condições possíveis de bem-estar, chegando mesmo a operar seu próprio matadouro, para que não houvesse crueldade desnecessária infligida aos animais na hora de abatê-los. Ele herdou a fazenda do pai e, além disso, tem uma família pra sustentar. É um dilema. O que fazer? Suas intenções são boas, mas ele herdou dos ancestrais não apenas a fazenda, mas também a força e a energia de seus hábitos.
Cada vez que uma vaca é morta, isso deixará uma impressão na sua consciência, que retornará a ele em sonhos, durante a meditação ou no momento da morte.
Tomar conta do gado da melhor maneira possível enquanto os animais estão vivos é de fato um Meio de Vida Correto. Ele deseja tratar seus animais com o máximo de bondade, mas também deseja a segurança proprocionada por uma renda estável para ele e para sua família.
Este homem deve continuar a contemplar todas as questões com profundidade, praticando continuamente a plena consciência. À medida em que sua compreensão se aprofunda, ele acabará encontrando uma forma de sair desta situação em que é obrigado a matar para viver.

Tudo o que fazemos é parte de nosso esforço de praticar o Meio de Vida Correto. Trata-se de um assunto muito mais amplo do que apenas o meio pelo qual obtemos nossa renda mensal. Talvez não possamos ter um Meio de Vida cem por cento correto, mas podemos decidir que vamos caminhar na direção da redução do sofrimento e do aumento de solidariedade e compaixão.

Milhões de pessoas, por exemplo, ganham a vida na indústria de armas, ajudando, direta ou indiretamente, a fabricar armamentos convencionais ou nucleares. Os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Inglaterra, a China e a Alemanha são os principais fornecedores de armas do mundo. A seguir, estas armas são vendidas para os países do Terceiro Mundo, onde o povo não precisa de armas e, sim, de comida.
Fabricar ou vender armas não é um Meio de Vida Correto, mas a responsabilidade por essa situação pertence a nós todos – políticos, economistas e consumidores. Nunca promovemos um grande debate nacional sobre esta questão, que é tão importante. Precisamos discutir isso, e precisamos também continuar a gerar novos empregos, para que ninguém seja pbrigado a viver dos lucros da fabricação de armas.
Se você exerce uma profissão em que há espaço para a realização de seu ideal de solidariedade, fique grato. E, por favor, ajude a criar empregos para que outros também possam viver de forma correta, simples e sadia. Use toda a sua energia para tentar melhorar a situação geral.

Praticar o Meio de Vida Correto significa praticar a Atenção Plena Correta. Cada momento em que o telefone tocar, considere-o como a campainha da atenção. Pare tudo o que estiver fazendo, inspire e expire conscientemente, e a seguir, atenda o telefone. A sua forma de atender o telefone personificará o Meio de Vida Correto.
Precisamos discutir entre nós como praticar a atenção plena em nosso local de trabalho e em todos os outros locais. Será que respiramos ao ouvir o telefone? Sorrimos quando estamos atendendo a outros? Caminhamos com atenção plena quando nos deslocamos de uma reunião para outra? Praticamos a Fala Correta? Fazemos um relaxamento total depois de muitas horas de trabalho pesado? Vivemos de forma a encorajar as pessoas a serem pacíficas e felizes, e a trabalhar para incentivar a paz e a felicidade? Estas perguntas são muito importantes, e são todas de ordem prática. Trabalhar para incentivar este tipo de pensamento e de ação, além da solidariedade, significa praticar o Meio de Vida Correto.

Se alguém tem uma profissão que contribui para que seres vivos sofram e oprimam os outros, isso acabará por contaminar a sua consciência, da mesma forma que quando poluímos o ar que depois iremos respirar. Muitas pessoas enriquecem vivendo de forma incorreta. Depois vão a um templo ou igreja e fazem doações. Estas doações se originam de sentimentos de culpa e medo, e não do desejo de fazer os outros felizes. Quando um templo ou igreja recebe grandes doações, as pessoas que recebem os recursos devem entender isso, e devem tentar ajudar na transformação do doador, mostrando-lhe como abandonar um Meio de Vida incorreto. Estas pessoas necessitam, mais do que qualquer outra coisa, dos ensinamentos do Buda.

À medida que vamos estudando e praticando o Nobre Caminho Óctuplo, começamos a entender que cada etapa do caminho está contida nos outros sete. Vemos também que cada etapa contém dentro de si as Nobres Verdades da existência, origem e cessação do sofrimento.

Ao praticar a Primeira Nobre Verdade, reconhecemos nosso sofrimento e o chamamos pelo seu nome correto – depressão, ansiedade, medo ou insegurança.
A seguir, olhamos de frente para ele, para descobrir em que se baseia, e isso representa a prática da Segunda Nobre Verdade. Essas duas práticas contêm os primeiros dois elementos do Nobre Caminho Óctuplo, ou seja, a Compreensão Correta e o Pensamento Correto.
Todos nós temos uma tendência a fugir do sofrimento, mas quando começamos a praticar o Nobre Caminho Óctuplo criamos coragem para passar a encarar o sofrimento de forma diferente. Utilizamos a Atenção Plena Correta e a Concentração Correta para observar o sofrimento de frente, com coragem. A prática de olhar com profundidade e enxergar com clareza representa a Compreensão Correta, que nunca nos mostrará uma única razão para o sofrimento, mas centenas de camadas de causas e condições: sementes que herdamos de nossos pais, avós e ancestrais;sementes dentro de nós nutridas por amizades ou pela situação econômica e política de nosso país; além de muitas outras causas e condições.

Agora chegamos ao ponto onde queremos fazer alguma coisa para diminuir o nosso sofrimento. Depois de identificar o que alimenta o nosso sofrimento, acharemos uma forma de deixar de ingerir esse nutriente, quer se trate de um comestível, de alimento dos sentidos, de nutriente recebido das nossas intenções, ou do alimento da nossa consciência.
Fazemos isso praticando a Fala Correta, a Ação Correta e o Meio de Vida Correto, sempre lembrando que a Fala Correta significa ouvir com atenção. Para isso nos guiamos pelos Treinamentos da Atenção Plena. Ao praticar os treinamentos da Atenção Plena entenderemos que devemos falar, agir e trabalhar sempre com a Atenção Plena Correta.
A Atenção Plena Correta nos avisa quando algo está em desacordo com a Fala Correta ou com a Ação Correta. Quando praticamos a Atenção Plena Correta e o Esforço Correto, o resultado é a Concentração Correta, o que fará emergir a compreensão ou, em outras palavras, a Compreensão Correta.
Na verdade não é possível praticar uma única etapa do Nobre Caminho Óctuplo sem praticar todos os outros sete. Essa é a natureza interdependente de tudo, que também se manifesta nos ensinamentos deixados por Buda.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Ação Correta

Ação Correta significa Ação Correta do corpo. É a prática de entrar em contato com o amor e evitar prejudicar os outros, praticando a não-violência consigo mesmo e com outras pessoas. A base da Ação Correta é agir sempre com atenção plena.

A Ação Correta está ligada a quatro treinamentos (o primeiro, o segundo, o terceiro e o quinto) dentre os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. O Primeiro versa sobre a reverência pela vida: "Cônscio do sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar a compaixão e a aprender formas de proteger as vidas das pessoas, animais, plantas e minerais. Estou decidido a não matar, não deixar que outros matem, e não dar apoio a qualquer ato desta natureza, nem em meus pensamentos nem em meu estilo de vida."

Nós matamos todos os dias em função da forma pela qual comemos, bebemos e usamos a terra, o ar e a água. Achamos que não matamos, mas não é verdade. A Ação Correta nos ajuda a ter consciência disto, e a contribuir para o fim da matança, salvando vidas.

O Segundo Treinamento da Atenção Plena tem a ver com generosidade: "Cônscio do sofrimento causado pela exploração, injustiça social, roubo e opressão, comprometo-me a cultivar a bondade e a aprender formas de contribuir para o bem estar de pessoas, animais, plantas e minerais. Praticarei a generosidade ao compartilhar meu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que realmente necessitem. Estou decidido a não roubar nem possuir qualquer coisa que deva pertencer a outra pessoa. Respeitarei a propriedade alheia, mas impedirei que haja o lucro de alguns com a dor humana ou com o sofrimento das outras espécies deste planeta."

Este aprendizado nos ensina a não tocar no que não é nosso e a não explorar os outros. Ele também nos incentiva a viver de forma a contribuir para a justiça e o bem estar sociais. Temos que aprender a viver com simplicidade, e não tentarmos nos apossar de mais do que nos cabe. Quando empreendemos qualquer ato que promova a justiça social, esta é uma Ação Correta.

O Terceiro Treinamento da Atenção Plena lida com responsabilidade sexual. "Cônscio do sofrimento causado pela má conduta sexual, comprometo-me a cultivar a responsabilidade e a aprender meios de proteger a segurança e a integridade de indivíduos, casais, famílias e da sociedade. Estou decidido a não ter relações sexuais sem amor e sem compromisso. Para preservar a minha felicidade e a dos outros, respeitarei os compromissos assumidos por mim e também os compromissos assumidos pelos outros. Farei tudo o que puder para proteger as crianças do abuso sexual e impedir que casais e famílias se separem devido à má conduta sexual."

A solidão não pode ser aliviada pela junção de dois corpos, a menos que também haja boa comunicação, compreensão e bondade. A Atenção Plena Correta nos ajuda a proteger os outros e a nós mesmos, inclusive as crianças, de um sofrimento maior. O mau comportamento sexual gera enorme sofrimento. Para proteger a integridade das famílias e indivíduos, agiremos sempre de forma responsável e encorajaremos os outros a fazer o mesmo. Com este aprendizado, protegeremos a nós, os que nos cercam, e toda a espécie humana, inclusive as crianças. Quando a Atenção Plena Correta irradia sua luz em nossa vida cotidiana, conseguimos manter esta prática de forma contínua.

A má conduta sexual já separou inúmeras famílias. Muito sofrimento é gerado porque as pessoas não praticam a responsabilidade sexual. Uma criança vítima de abuso sexual sofrerá por toda a sua vida. Aqueles que passaram por esta experiência podem se tornar bodhisattvas, ajudando a muitas crianças. Nossa mente amorosa pode transformar nossa dor, tornando-nos capazes de compartilhar o que aprendemos com outros. Esta é a Ação Correta, que liberta tanto a nós quanto os que nos cercam. Quando tentamos ajudar os que estão ao nosso redor, ajudamos também a nós mesmos.

O Quinto Treinamento da Atenção Plena nos incentiva a comer, beber e consumir conscientemente. Ele está vinculado às Quatro Nobres Verdades e a todos os elementos do Nobre Caminho Óctuplo, em especial à Ação Correta: "Cônscio do sofrimento causado pelo consumo inconsciente e desatento, comprometo-me a cultivar a boa saúde, tanto física como mental, em mim, em minha família e na sociedade, tendo consciência do que irei comer, beber e consumir. Comprometo-me a ingerir apenas coisas capazes de preservar a paz, o bem-estar e a alegria de meu corpo e minha consciência, bem como do corpo e da consciência da família e sociedade. Tenho a firme intenção de não usar álcool ou outros intoxicantes, nem ingerir alimentos ou praticar diversões que contenham toxinas, como por exemplo certos programas de TV, revistas, livros, filmes e conversas. Sei que ao contaminar meu corpo ou minha consciência com estes venenos estou traindo meus ancestrais, meus pais, minha sociedade e as gerações futuras. Comprometo-me a trabalhar para transformar a violência, o medo, a raiva e a confusão existentes dentro de mim e na sociedade, praticando uma dieta que ajuda a mim e também à sociedade. Compreendo que uma boa dieta é fundamental para a transformação do indivíduo e da sociedade."

Ação Correta significa fornecer ao corpo e à mente apenas nutrientes sadios e seguros. Ao comer e beber de modo consciente, evitamos tudo o que possa gerar toxinas, bem como álcool ou drogas, tanto em nível individual quanto familiar e social. Vamos consumir sempre com consciência, para que a vida se torne melhor para todos. Praticaremos o consumo consciente para proteger nosso corpo e nossa mente da ingestão de toxinas. Certos programas de televisão, livros, revistas e conversações têm o dom de introduzir a violência, o medo e o desespero em nossas consciências. Precisamos praticar o consumo consciente para proteger o corpo, a mente, e também a família e a sociedade.

Quando nos propomos a não beber álcool, estamos nos protegendo mas também estamos protegendo a família e a sociedade. Uma mulher de Londres me disse: "Venho bebendo dois copos de vinho por dia há mais de vinte anos, e isso nunca me fez mal. Por que deveria abandonar este hábito?" Eu respondi: "É verdade que dois copos por dia não lhe fazem mal, mas como sabe que isso não prejudica seus filhos? Você pode não ter o gene do alcoolismo, mas talvez um dos seus filhos o tenha. Se abandonar o vinho fará um favor não só a si mesma, mas aos seus filhos e à sociedade." Ela compreendeu, e na manhã seguinte recebeu formalmente os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Esse é o trabalho de um bodhisattva, fazer as coisas não por si mesmo, mas por todas as outras pessoas.

O Ministério da Saúde francês aconselha as pessoas a não beberem demais. Eles anunciam na televisão: "Um copo não faz mal, mas três copos são um convite para o desastre." Eles querem que as pessoas sejam moderadas ao beber. Mas se o primeiro copo não for bebido, não haverá o terceiro. Evitar o primeiro copo é a melhor proteção que existe, porque você protege a si mesmo e todos nós ao mesmo tempo. Quando consumimos conscientemente, estamos protegendo nosso corpo e mente, bem como o corpo e a mente da família e da sociedade. Sem o Quinto Treinamento da Atenção Plena, como poderemos melhorar nossa sociedade? Quanto mais consumirmos, mais sofreremos, e mais faremos os outros sofrerem. O consumo consciente parece ser a única forma de sair dessa situação, fazendo cessar a destruição de nossos corpos,. nossas mentes bem como do corpo e da mente sociais.

Observando com profundidade, enxergamos a natureza intercambiável dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena e do Nobre Caminho Óctuplo. Usamos a Atenção Plena Correta para verificar se nossa comida, bebida e consumo estão de acordo com a Ação Correta. Tanto a Compreensão Correta quanto o Pensamento Correto e a Fala Correta precisam estar presentes para que possamos praticar o Quinto Treinamento da Atenção Plena. Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena são interpenetrados por todos os elementos do Nobre Caminho Óctuplo, em especial a Ação Correta.

A Ação Correta se baseia na Compreensão Correta, no Pensamento Correto e na Fala Correta, e depende do Meio de Vida Correto. Aqueles que ganham o seu sustento fabricando armas, tirando a oportunidade de os outros viverem, destruindo o meio ambiente, explorando a natureza ou as pessoas, ou fabricando coisas que produzem toxinas, talvez ganhem muito dinheiro, mas estão praticando o meio de vida errôneo. Temos que estar conscientes para podermos evitar as ações incorretas. Se não tivermos a Compreensão Correta, o nosso esforço pode estar produzindo resultados não desejados.

Um mestre experiente só precisa observar o praticante caminhando ou tocando um sino para saber quanto tempo ele está na prática do caminho. O mestre observa a Ação Correta do praticante e vê todas as outras etapas que estão contidas nela. Assim também, se observarmos com atenção uma pessoa em relação a uma etapa do caminho, podemos avaliar a sua realização em relação às demais etapas.

Existem muitas coisas que podem ser feitas para se praticar a Ação Correta. Por exemplo, proteger vidas, praticar a generosidade, comportar-se de forma responsável e consumir conscientemente. A base da Ação Correta é a Atenção Plena Correta.

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bodhisattva

No Budismo Theravada o termo "bodhisatta" é usado para designar uma nova pessoa antes de sua iluminação mas que descobriu o caminho para a libertação. Uma pessoa que acordou para os ensinamentos mas ainda está sujeito ao nascimento, doença, morte, tristeza, profanação e ilusão.

No Budismo Mahayana, por outro lado, considera o "bodhisattva" como uma pessoa que já tem um considerável grau de esclarecimento e procura usar sua sabedoria para ajudar outros seres humanos a tornarem-se livres. Nesse entendimento da palavra o bodhisattva é uma pessoa sábia que usa meios hábeis para levar os outros a ver os benefícios da virtude e do cultivo da sabedoria.

sábado, 15 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Pensamento Correto

Quando a Compreensão Correta se toma parte integrante de nosso ser, o resultado é o Pensamento Correto. Necessitamos da Compreensão Correta como alicerce do pensamento. E se treinarmos o Pensamento Correto, nossa Compreensão Correta irá se aprimorar. O processo de pensar é a fala da mente. O Pensamento Correto torna a nossa fala mais clara e mais benevolente. Como o pensamento costuma conduzir à ação, o Pensamento Correto é fundamental para nos conduzir ao caminho da Ação Correta.

O Pensamento Correto reflete a forma como as coisas são. O pensamento errôneo nos faz enxergar as coisas "de cabeça para baixo". Mas praticar o Pensamento Correto não é nada fácil. O que costuma ocorrer é que nossa mente está pensando uma coisa enquanto o corpo está fazendo outra. Corpo e mente não funcionam de forma unificada. Para isso, a respiração consciente é um elemento importante de ligação. Quando nos concentramos na respiração, estamos unindo o corpo à mente e tornando-os íntegros de novo.

Quando Descartes disse: "Penso, logo existo", ele estava afirmando que podemos provar nossa própria existência através do pensamento Eu concluiria o exato oposto: "Penso, portanto não existo."

Enquanto mente e corpo não funcionarem unificadamente, vamos continuar nos perdendo de nós mesmos e não poderemos dizer que estamos realmente aqui, presentes. Se praticarmos a respiração conscientemente, entrando em contato com os elementos curadores e renovadores que já existem dentro de nós e ao nosso redor, conseguiremos encontrar paz e estabilidade. A respiração consciente nos ajuda a parar de nos preocupar com as tristezas do passado e as ansiedades do futuro. Ajuda-nos a entrar em contato com a vida no momento presente. A maior parte de nosso pensar é totalmente desnecessária, porque ele é composto de pensamentos limitados e dotados de pouca compreensão.

Às vezes parece que há um gravador dentro de nossa cabeça - ligado dia e noite - e não conseguimos desligá-lo. Ficamos preocupados, tensos e temos pesadelos. Quando praticamos a atenção plena, começamos realmente a ouvir pela primeira vez a fita que está no gravador de nossa mente, e então percebemos quais os pensamentos úteis e quais os inúteis.

O pensamento tem duas partes - o pensamento inicial e aquele que se desenvolve a partir dele. Um pensamento inicial é algo como "esta tarde tenho que entregar o trabalho de literatura". O desenvolvimento deste pensamento pode ser perguntarmo-nos se fizemos o trabalho corretamente, se deveríamos reler a redação mais uma vez antes de entregar, se o professor vai perceber que entregamos atrasados etc.

No primeiro estágio da concentração meditativa, os dois tipos de pensamento se fazem presentes. No segundo estágio, nenhum dos dois aparece. Nessa altura, teremos um contato mais profundo com a realidade, e estaremos livres de palavras e conceitos. No ano passado, ao passear em um bosque com um grupo de crianças, percebi que uma das meninas estava absorta em seus pensamentos.

Finalmente, ela me perguntou: "Vovô monge, de que cor é a casca daquela árvore?" "É da cor que você a vê", respondi eu. Eu queria que ela penetrasse naquele mundo maravilhoso que estava à sua frente, e não desejava colocar mais nenhum conceito em sua cabeça.

Existem quatro práticas relacionadas ao Pensamento Correto:

(1) "Você tem certeza?" - Se houver uma corda em seu caminho e você enxergar uma cobra, o medo inevitavelmente surgirá. Quando mais deturpada for sua percepção, mais incorreto será seu pensamento resultante. Por favor, anote as palavras "Você tem certeza?" em uma grande folha de papel e pendure em algum lugar bem visível, onde não possa deixar de ver. E repita esta pergunta inúmeras vezes. As percepções errôneas geram pensamentos incorretos e muito sofrimento desnecessário.

(2) "O que estou fazendo?" - Às vezes pergunto a um dos meus alunos o que ele está fazendo, para ajudá-lo a largar os pensamentos sobre o passado ou sobre o futuro e retornar ao momento presente. Pergunto para ajudá-lo a existir - aqui e agora. Para responder, ele só precisa sorrir. Um sorriso é a única coisa que demonstraria sua real presença.

Quando nos perguntamos o que estamos fazendo, fica mais fácil vencer o hábito de querer terminar tudo rapidamente. Sorria para si mesmo e diga: "Lavar este prato é a coisa mais importante de minha vida." Quando se perguntar, "O que estou fazendo?", reflita seriamente sobre a questão. Caso os pensamentos o arrastem para outras paragens, você precisa de mais atenção plena para impedir que isso aconteça. Quando você está realmente presente, lavar os pratos pode ser uma experiência profunda e extremamente agradável. Mas se você lava os pratos pensando o tempo todo em outra coisa, está perdendo tempo e provavelmente deixando de lavar bem os pratos. Se não estiver presente, nem que lave 84.000 pratos não terá mérito.

O imperador Wu perguntou a Bodhidharma, o fundador do zen budismo na China, quanto mérito ele havia conquistado ao construir templos por todo o país. Bodhidharma respondeu: "Mérito nenhum." Mas se você lavar um único prato com atenção plena, se construir um pequeno templo enquanto permanece inteiramente no momento presente - sem querer estar em nenhum outro lugar, nem desejoso de fama ou reconhecimento -, o mérito deste ato será enorme, e você se sentirá feliz. Pergunte sempre a si mesmo: "O que estou fazendo?" Quando você aplica a plena atenção ao que está fazendo, sem ser arrastado por seus pensamentos, torna-se uma pessoa feliz e um instrumento de ajuda para os outros.

(3) "Alô força do hábito!" - Nós tendemos a ser fiéis aos nossos hábitos, mesmo aqueles que provocam sofrimento. O hábito de trabalhar demais é um bom exemplo. No passado, nossos ancestrais precisavam trabalhar o tempo todo simplesmente para colocar comida na mesa. Mas hoje em dia temos uma forma de trabalhar compulsiva, que nos impede de ter um contato maior com a vida. Pensamos em trabalho o tempo todo, e não nos concedemos tempo nem para respirar. Precisamos encontrar momentos para contemplar as flores de cerejeira e para tomar nosso chá com atenção plena. Nossa forma de agir depende da forma de pensar, e a forma de pensar depende dos hábitos. Quando entendemos isso, só precisamos dizer: "Alô força do hábito!", e nos tornarmos amigos dos nossos padrões de pensamento e de ação. Quando aceitamos os pensamentos que estão enraizados dentro de nós sem nos sentirmos culpados, eles perderão grande parte de seu poder sobre nós. O Pensamento Correto sempre conduz à Ação Correta.

(4) Nossa "mente de amor" é o desejo profundo de cultivar a compreensão dentro de nós, para poder ser um veículo de felicidade para os outros. É a força motivadora por trás da vida consciente. Tendo a "mente de amor" como alicerce dos pensamentos, tudo o que fizermos ou dissermos ajudará os outros a se libertarem. O Pensamento Correto acaba produzindo o Esforço Correto.

O Buda nos ensinou muitas formas de transformar os pensamentos destrutivos. Uma das formas, disse ele, é substituir um pensamento não-saudável por outro saudável, simplesmente "trocando a cavilha", da mesma forma que um marceneiro substitui uma cavilha podre martelando uma nova por cima. Se somos constantemente invadidos por pensamentos pouco saudáveis, precisamos aprender a trocar as cavilhas, substituindo este tipo de pensamentos por outros mais saudáveis. O Buda comparou o pensamento não-saudável a uma cobra morta enrolada no pescoço. Ele disse que a forma mais fácil de impedir que este tipo de pensamento nos invada é viver em um ambiente saudável, por exemplo, numa comunidade que pratica o viver consciente. Com a ajuda e a presença dos irmãos e irmãs de Darma, é fácil manter o Pensamento Correto. Viver em um bom ambiente é a melhor medicina preventiva.

O Pensamento Correto é aquele que está em conformidade com a Compreensão Correta. É um mapa que pode nos ajudar a encontrar o caminho. Mas quando chegarmos ao nosso destino, precisaremos deixar o mapa de lado e mergulhar na realidade. "Pensar sem pensamentos" é uma famosa frase zen. Quando praticamos a Compreensão Correta e o Pensamento Correto, aprendemos a viver no momento presente, entrando em contato com as sementes da alegria, da paz e da liberação, curando e transformando nosso sofrimento, e aprendendo a estar disponíveis para os outros.

“A Essência dos ensinamentos de Buda”