quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Atenção Correta

A Atenção Plena Correta está sempre no âmago de todos os ensinamentos de Buda. Tradicionalmente, a Atenção Plena Correta é a sétima etapa do Caminho Óctuplo. Quando a Atenção Plena Correta está presente, as Quatro Nobres Verdades e os outros sete componentes do Caminho Óctuplo também se fazem presentes.
Quando estamos conscientes, nosso pensar é o Pensamento Correto e o falar, a Fala Correta, e assim por diante. A Atenção Plena Correta é a energia que nos traz de volta para o momento presente. Cultivar a atenção plena significa cultivar o Buda interior, cultivar o Espírito Santo.

De acordo com a psicologia budista, a atenção tem a característica de universalidade, o que significa que estamos sempre dando atenção a algo. Nossa atenção pode ser "adequada", ou seja, estamos inteiramente no momento presente ou pode ser "inadequada", o que ocorre quando estamos atentos a algo que nos afasta do aqui e agora. Um bom jardineiro sabe como obter lindas flores usando esterco. A Atenção Plena Correta tudo aceita, sem julgar nem reagir. É inclusiva e amorosa. Sua prática consiste em buscar formas para conseguir manter a atenção adequada durante todo o dia.

A palavra sânscrita que designa atenção plena, smriti, significa "lembrar-se". A atenção plena consiste em lembrar-se constantemente de voltar ao momento presente. O ideograma chinês para a atenção plena tem duas partes: a parte superior significa "agora" e a parte inferior "mente" ou "coração." O Primeiro Milagre da Atenção Plena é estar presente e ser capaz de entrar em contato profundo com o céu azul, a flor ou o sorriso de nosso filho.

O Segundo Milagre da Atenção Plena é fazer com que o outro - o céu, a flor ou nosso filho - também esteja presente. No poema épico vietnamita Conto de Kieu, a heroína volta ao apartamento de seu amado, Kim Trong, e o encontra dormindo em sua escrivaninha, com a cabeça sobre uma pilha de livros. Kirn Trong ouve os passos de Kieu mas, semi-adormecido, pergunta: "Você está realmente aqui, ou estou sonhando?" Kieu responde: "Agora temos a oportunidade de ver-nos com clareza. Mas se não vivermos este momento profundamente, ele não terá passado de um sonho." Você e seu amado estão aqui juntos. Têm a oportunidade de se olharem profundamente. Mas se não estiverem completamente presentes, tudo não passará de um sonho.

O Terceiro Milagre da Atenção Plena é nutrir o objeto de sua atenção. Quando foi a última vez que olhou nos olhos de sua amada e perguntou: "Quem é você, minha querida?" Não se satisfaça com uma resposta superficial. Pergunte novamente: "Quem é você, que assumiu o meu sofrimento como seu, minha felicidade como sua, minha vida e morte como suas? Meu amor, por que razão você não é uma gota de orvalho, uma borboleta ou um pássaro?" Pergunte com todo o seu ser. Se não prestar a devida atenção à pessoa que ama, estará cometendo uma espécie de assassinato. Quando estiverem juntos fazendo alguma coisa, e se perderem em seus próprios pensamentos, cada um presumindo que sabe tudo sobre o outro, na verdade um estará morrendo lentamente. Mas com atenção plena será capaz de fazer renascer uma flor que ia murchar. "Eu sei que você está aqui, ao meu lado, e isso me faz feliz." Através da atenção, você será capaz de descobrir fatos novos e maravilhosos da amada, suas alegrias, seus talentos ocultos, suas aspirações mais profundas. Se você não praticar a atenção apropriada, como pode dizer que a ama?

O Quarto Milagre da Atenção Plena é aliviar o sofrimento de outra pessoa. "Eu sei que você sofre, e é por isso que estou aqui." Pode dizer isso com palavras ou simplesmente pela forma como olha para a pessoa. Se não estiver realmente presente, ou se ficar pensando em outras coisas, o milagre do alívio do sofrimento não se realizará. Em momentos difíceis, se tiver um amigo realmente presente ao seu lado, saberá que é um privilegiado. Amar significa nutrir o outro com atenção. Quando se pratica a Atenção Plena Correta, nós e o outro estamos presentes aqui e agora. "Querida, eu sei que você está aqui. Sua presença é preciosa para mim." Se você não demonstra isto quando estão juntos, no dia em que ela morrer ou sofrer um acidente, você chorará e lamentará o fato de antes do acidente não ter sabido se realmente foi feliz com ela.

Quando alguém está próximo da morte, se nos sentarmos ao seu lado com uma atitude estável e sólida, já será uma enorme ajuda para que esta pessoa possa abandonar esta vida com certa facilidade. Nossa presença será como um mantra, a fala sagrada que tem efeito transformador. Quando seu corpo, sua fala e sua mente estão em perfeita unicidade, o mantra fará efeito antes mesmo que se pronuncie uma única palavra. Os primeiros quatro milagres da atenção plena pertencem ao primeiro aspecto da meditação, shamatha - parar, acalmar-se, descansar e curar-se. Depois que você conseguir se acalmar e parar de se dispersar, sua mente ficará autofocalizada e você estará pronto para a contemplação profunda.

O Quinto Milagre da Atenção Plena é a contemplação profunda, que também é o segundo aspecto da meditação. Relaxado e concentrado, você está realmente preparado para olhar em profundidade. Você irradia a luz da atenção plena sobre o objeto que observa, e ao mesmo tempo irradia a luz da atenção plena para si mesmo. Observa o objeto de sua atenção e ao mesmo tempo enxerga o conteúdo da própria consciência armazenadora que está repleta de jóias preciosas.


O Sexto Milagre da Atenção Plena é a compreensão. Quando entendemos algo, nós dizemos: "Ah, sim, estou vendo." Vemos alguma coisa que não víamos antes. Ver e compreender são processos que surgem dentro de nós. Ao usar a atenção, entramos em contato com o momento presente, profundamente, e podemos ver e ouvir com clareza. Isso gera frutos, que são a compreensão, a aceitação, o amor e o desejo de aliviar a dor e trazer alegria. Quando você entende alguém, não consegue deixar de amar esta pessoa. A compreensão é o verdadeiro alicerce do amor.

O Sétimo Milagre da Atenção Plena é a transformação. Quando praticamos a Atenção Plena Correta, entramos em contato com os elementos curadores e renovadores da vida, e começamos a transformar a nossa dor e o sofrimento do mundo. Passamos a desejar vencer um hábito, como, por exemplo, o hábito de fumar, em prol da saúde de nosso corpo e nossa mente.
Quando começamos a praticar, a força de nossos hábitos é mais forte do que a atenção plena, por isso não esperamos conseguir parar de fumar de um momento para outro.
Mas na verdade só precisamos ter consciência de estar fumando no momento em que fumamos. Ao prosseguir na prática, olhando profundamente e observando os efeitos que o fumo tem sobre a mente, o corpo, a família e a comunidade, adquirimos a determinação de parar.
Não é fácil, mas a prática da atenção plena nos ajuda a ver com clareza tanto o desejo como seus efeitos, e finalmente encontramos uma forma de parar. Nesse processo, a Sangha é importante. Um homem que visitou Plum Village vinha tentando parar de fumar há vários anos, mas não conseguia. Em Plum Village ele conseguiu parar logo no primeiro dia, porque a energia do grupo é muito forte. "Ninguém está fumando aqui, por que eu iria fumar?" Podemos levar anos para transformar a força de um hábito, mas quando conseguimos, detemos a roda do ciclo vicioso do sofrimento e confusão que vem se prolongando há tantas vidas.

Praticar os Sete Milagres da Atenção Plena nos ajuda a levar uma vida mais feliz e saudável, transformando o sofrimento e conquistando paz, alegria e liberdade.

No Discurso Os Quatro Estabelecimentos da Atenção Plena, o Buda propõe quatro objetos para a prática da atenção plena: o corpo, as sensações, a mente e os objetos da mente.
Os Quatro Estabelecimentos da Atenção Plena são o alicerce de nossa casa. Sem eles, a casa fica abandonada. Não há ninguém para varrer, limpar ou arrumar. Nosso corpo fica maltratado, os sentimentos repletos de sofrimento e a mente uma pilha de aflições. Quando estamos realmente em casa, nosso corpo, mente e sensações são um local de refúgio para nós e para os outros.

O primeiro estabelecimento é "a atenção plena do corpo no corpo". Muitas pessoas detestam seus corpos. Acham que o corpo é um obstáculo, e querem maltratá-lo. Quando a irmã Jina, uma monja de Plum Village, ensina ioga, ela sempre começa dizendo: "Vamos tomar consciência de nossos corpos. Inspirando, eu tenho consciência de estar em meu corpo. Expirando, eu sorrio para meu corpo." Praticando desta forma, nós renovamos o conhecimento do corpo e fazemos as pazes com ele. No Kayagatasati Sutta, o Buda oferece vários métodos para nos ajudar a ter consciência do que acontece no corpo. Passamos a observar de forma não dualista, estando presentes no corpo durante a observação. Começamos prestando atenção a todas as posições e movimentos do corpo. Quando nos sentamos, percebemos que estamos sentados. Quando ficamos de pé, quando caminhamos ou quando nos deitamos, sabemos que estamos de pé, caminhando ou deitados. Quando praticamos desta forma, a atenção plena está presente. Esta prática é chamada "simples reconhecimento".

A segunda forma que o Buda nos ensinou para praticar a atenção plena ao corpo no corpo é reconhecer todas as partes de nosso corpo, do alto da cabeça até as solas dos pés. Se temos cabelo louro, reconhecemos este fato e sorrimos para isto. Se o cabelo é grisalho, também reconhecemos este fato e sorrimos. Observamos se nossa testa está relaxada ou se tem sulcos. Com atenção, passamos pelo nariz, boca, braços, coração, pulmões, sangue, e assim por diante. O Buda comparou a prática de reconhecer as trinta e duas partes do corpo a um fazendeiro que vai até o celeiro, pega um saco de cereais, coloca-o no chão e esparrama seu conteúdo, passando a separar o que é arroz, o que é feijão, o que é gergelim, e assim por diante. Desta forma, reconhecemos os olhos como sendo os nossos olhos, e os pulmões como os nossos pulmões. Podemos fazer isso durante a meditação sentada ou mesmo deitados. Podemos varrer o corpo com a atenção plena durante meia hora, observando cada parte e sorrindo para ela. O amor e o cuidado contidos nesta meditação têm enorme poder de cura.

O terceiro método sugerido pelo Buda para a prática da atenção plena ao corpo no corpo é observar os elementos dos quais o corpo é composto: terra, água, fogo e ar. "Ao inspirar, vejo o elemento terra em mim. Ao expirar, sorrio para o elemento terra em mim." O elemento terra consiste em tudo o que é sólido. Quando vemos o elemento terra dentro e fora de nós, percebemos que realmente não existem divisões entre nós e o resto do universo. A seguir, reconhecemos o elemento água dentro e fora de nós. "Inspirando, tomo consciência do elemento água em meu corpo." Meditamos sobre o fato de que nosso corpo é composto de mais de setenta por cento de água. Depois disso, reconhecemos o elemento fogo, que representa o calor, dentro e fora de nós. Para que a vida seja possível, tem que haver calor. Praticando isto, percebemos novamente que os elementos dentro e fora do corpo pertencem à mesma realidade, e que não estamos realmente confinados pelo corpo. Estamos em toda a parte.

O quarto elemento do corpo é o ar. A melhor forma de experimentar o elemento ar é praticar a respiração consciente. "Inspirando, eu sei que estou inspirando. Expirando, eu sei que estou expirando." Depois de dizer isso, podemos resumir dizendo simplesmente "Inspirando" e "Expirando". Não tentamos controlar a respiração. Quer a inspiração seja longa ou curta, rasa ou profunda, nós apenas respiramos naturalmente e irradiamos a luz da atenção plena sobre ela. Ao fazer isto, percebemos que, de fato, nossa respiração se torna naturalmente mais lenta e mais profunda. "Ao inspirar, minha inspiração torna-se profunda. Ao expirar, minha expiração torna-se lenta."

Agora podemos praticar o "Profundo/Lento". Não precisamos mais fazer nenhum esforço. A respiração se torna mais lenta e mais profunda por si mesma, e nós apenas reconhecemos o fato.

Mais tarde, você perceberá que se tornou mais calmo e que está mais descansado. "Inspirando, sinto-me calmo. Expirando, sinto-me descansado. Não estou mais lutando. Calmo e descansado." Então: "Ao inspirar, eu sorrio. Ao expirar, eu solto todas as minhas preocupações e ansiedades. Sorrir/soltar." Conseguimos sorrir para nós mesmos e soltar as preocupações. Existem mais de trezentos músculos no rosto, e quando sabemos como respirar e sorrir, estes músculos podem relaxar. Essa é a "ioga da boca". Ao sorrir, soltamos todas as nossas sensações e emoções. A última prática é: "Inspirando, estou no momento presente. Expirando, sei que este momento é maravilhoso. Momento presente/momento maravilhoso." Nada é mais precioso do que estar no momento presente, totalmente vivo e perfeitamente consciente.

Inspiro, expiro
Profunda, lenta
Calma, à vontade
Sorriso, alívio
Momento presente, momento maravilhoso.

Se você usar este poema durante a meditação sentada ou caminhando, ele se revelará muito nutritivo e curador. Pratique cada linha pelo tempo que desejar.

Outra prática que ajuda a ter consciência da respiração é contar. Ao inspirar, conte "um" e ao expirar conte "um" de novo. A seguir, "Dois/dois", "Três/três", até chegar a dez. Depois disso, inverta o sentido, contando "Dez/ dez", "Nove/nove", e assim por diante, até voltar ao um. Se não se perder no caminho, saberá que tem boa concentração. Se por acaso se perder, volte ao "um" e recomece. Relaxe, é apenas um jogo. Quando conseguir contar até o fim, pode abandonar os números, e apenas dizer "inspirar" e "expirar". A respiração consciente é um grande prazer. Quando descobri o Discourse on the Full Awareness of Breathing, achei que eu era a pessoa mais feliz do mundo. Estes exercícios nos foram transmitidos por uma comunidade que os vem praticando há mais de 2.600 anos.


www.viverconsciente.com

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Esforço Correto

O Esforço Correto, é um tipo de energia que nos ajuda a percorrer mais rápido o Nobre Caminho Óctuplo. Se formos diligentes na procura de posses, sexo ou comida, isso será o esforço errôneo. Se trabalharmos vinte e quatro horas por dia para obter lucro ou fama, ou para fugir da dor, isso também constitui esforço errôneo. Vistos de fora, podemos parecer diligentes, mas não estaremos praticando o Esforço Correto. A mesma coisa se aplica à nossa prática de meditação. Podemos parecer diligentes na prática, mas se ela nos afasta da realidade ou daqueles a quem amamos, não é o Esforço Correto. Quando praticamos a meditação sentada ou andando, de forma a fazer nosso corpo e nossa mente sofrerem, esse esforço não representa o Esforço Correto nem está baseado na Compreensão Correta. Nossa prática deve ser inteligente, baseada na real compreensão do ensinamento. Não é porque praticamos muito que podemos dizer que praticamos o Esforço Correto.

Havia um monge na Dinastia Tang na China que meditava dia e noite. Ele achava que praticava mais e melhor do que qualquer outra pessoa, e se orgulhava disso. Sentava-se como uma pedra, dia após dia, mas seu sofrimento não se transformava. Um dia um mestre perguntou: "Por que você se senta em meditação por tanto tempo?" e o monge respondeu: "Para me tornar um Buda!" O mestre apanhou um ladrilho e começou a polir o ladrilho com força. O monge perguntou o que estava fazendo, e o mestre respondeu: "Estou fazendo um espelho." O monge então perguntou: "Como pode transformar um ladrilho em espelho?" e o mestre respondeu: "Como você pode se transformar em Buda apenas sentado?"

As quatro práticas que costumam estar associadas ao Esforço Correto são:
(1)     Impedir o crescimento e o desenvolvimento das sementes indesejáveis contidas em nossa consciência armazenadora.
(2)     Ajudar as sementes indesejáveis já desenvolvidas a retornar à consciência armazenadora.
(3)     Encontrar formas de irrigar as sementes sadias que ainda não cresceram em nossa consciência armazenadora, incentivando o mesmo processo aos amigos.
(4)     Nutrir as sementes sadias que já cresceram, para que permaneçam em nossa consciência mental, tornando-se cada vez mais fortes. Isso é chamado de Esforço Correto Quádruplo.

Uma semente "não-sadia" é algo que não conduz à libertação nem ao caminho. Em nossa consciência armazenadora existem muitas sementes que não são benéficas para a nossa transformação, e se forem regadas ficarão cada vez mais fortes. Quando a ganância, o ódio, a ignorância e os pontos de vista incorretos aparecem em nós, se nós os observarmos com a Atenção Plena Correta, mais cedo ou mais tarde eles perderão sua força e retornarão à consciência armazenadora.

Quando as sementes sadias ainda não cresceram, podemos regá-las e ajudá-las a penetrar na mente consciente. Essas sementes de felicidade, amor, lealdade e reconciliação precisam ser regadas todos os dias. Ao regá-las, sentiremos grande alegria, o que as encorajará a permanecer mais tempo conosco. A quarta prática do Esforço Correto é a manutenção em nossa consciência das formações mentais saudáveis.

O Esforço Correto Quádruplo é alimentado pela alegria e pelo interesse. Se sua prática não lhe traz alegria, você não está praticando corretamente. O Buda perguntou ao monge Sona: "É verdade que antes de se tornar monge você foi músico?" e Sona respondeu que sim. O Buda então perguntou:

-          O que acontece quando as cordas do instrumento estão frouxas?

-          Quando tocamos a corda, não sai som algum - respondeu Sona.

-          E o que acontece quando a corda está esticada em demasia?

-          Ela rebenta.

-          A prática do caminho é a mesma coisa - disse o Buda. – Cuide de sua saúde. Tenha alegria. Não se force a fazer nada de que não seja capaz.

Precisamos ter consciência de nossos limites psicológicos e físicos. Não devemos nos forçar a práticas de ascetismo nem tampouco devemos nos perder nos prazeres dos sentidos. O Esforço Correto está no Caminho do Meio, entre os dois extremos da austeridade e da indulgência sensual.

O ensinamento dos Sete Fatores do Despertar também é parte da prática do Esforço Correto. A alegria é um dos Fatores do Despertar, e fica bem no âmago do Esforço Correto. O bem-estar, outro Fator do Despertar, também é essencial ao Esforço Correto. Na verdade, não apenas o Esforço Correto mas também a Atenção Plena Correta e a Concentração Correta necessitam de alegria e bem-estar para poderem se desenvolver. O Esforço Correto não implica nos forçarmos a coisa alguma. Se temos alegria, bem-estar e interesse, nosso esforço será exercido naturalmente. Quando ouvirmos o sino chamando para a meditação, teremos energia para participar dela, porque para nós a meditação é alegre e interessante. Se não tivermos energia para praticar a meditação andando nem a meditação sentada, é porque estas práticas não nos trazem alegria nem nos transformam, ou porque ainda não conseguimos enxergar seus benefícios.

Mestre Guishan disse: "O tempo corre como uma flecha. Se não vivermos em profundidade, desperdiçaremos nossa vida." Alguém que consegue dedicar sua vida à prática e que tem a oportunidade de conviver com um mestre e com amigos que praticam, é alguém que desfruta de uma maravilhosa oportunidade, capaz de lhe proporcionar muita felicidade. Se não tivermos o Esforço Correto, é porque ainda não encontramos a forma de praticar adequada para nós, ou então porque ainda não sentimos necessidade de praticar intensamente. Uma vida vivida consciente é uma coisa maravilhosa.

"Ao acordar hoje de manhã eu sorri:
Vinte e quatro horas, novinhas em folha, ao meu dispor.
Tenho a firme intenção de viver plenamente cada momento de meu dia,
e olhar para todos os seres com os olhos da compaixão."


Ao recitar esse verso, estamos armazenando energia para viver nosso dia com sabedoria. Vinte e quatro horas são um tesouro pleno de possibilidades. Se desperdiçarmos estas horas, estamos desperdiçando nossa vida. A prática correta é sorrir tão logo despertamos, reconhecendo esse novo dia como mais uma oportunidade para praticar. É nossa responsabilidade não desperdiçar nenhuma oportunidade. Quando contemplamos todos os seres com um olhar de amor e compaixão, ficamos felizes. Com a energia da atenção plena, varrer o chão, lavar os pratos ou meditar andando são coisas extremamente preciosas.

O sofrimento costuma nos conduzir à prática. Quando estamos ansiosos ou tristes, ao constatarmos que as práticas nos aliviam, deseja-mos praticar mais para nos sentirmos melhor. É preciso muita energia para contemplar o sofrimento e investigar suas causas, mas é esta compreensão que nos diz como colocar um ponto final no sofrimento e qual o caminho necessário para conseguir isso. Quando somos capazes de acolher o sofrimento, compreendemos suas origens, e vemos que é possível pôr um fim nele, porque existe um caminho para se fazer isto. Nossa dor está no centro de tudo. Quando olhamos para o esterco, enxergamos as flores. Quando olhamos para um mar de fogo, vemos um lótus. O caminho que não foge de nós mas que, ao contrário, recebe a nossa dor, é o caminho que nos conduz à libertação.

Nem sempre é necessário lidar diretamente com o sofrimento. Às vezes podemos permitir que ele permaneça adormecido em nossa consciência armazenadora, usando essa oportunidade para, através da atenção plena, entrar em contato com os elementos curadores e renovadores que existem em nós e ao nosso redor. Eles se encarregarão de tomar conta da dor, como anticorpos lutando contra elementos estranhos que penetraram na corrente sangüínea. Quando sementes não-sadias começam a crescer, temos que fazer algo a respeito, mas caso permaneçam adormecidas, temos que ajudá-las a continuar dormindo pacificamente, para serem transformadas na base.

Com a Compreensão Correta, enxergamos o caminho a ser seguido, e isso nos confere fé e energia. Se nos sentirmos bem depois de praticar por uma hora a meditação andando, teremos a convicção necessária para continuar praticando. Ao vermos como este tipo de meditação traz paz para as outras pessoas, nós também teremos mais fé nessa prática. Com paciência, descobriremos as alegrias que a vida nos oferece, e teremos mais energia, interesse e diligência.

A prática do viver consciente deve ser alegre e prazerosa. Se você inspira e expira com alegria e paz, isto é o Esforço Correto. Se você se reprime, ou se não gosta da prática, provavelmente não está praticando o Esforço Correto. Examine sua forma de praticar. Veja o que lhe proporciona paz e felicidade em todas as ocasiões. Tente passar algum tempo numa Sangha, onde irmãos e irmãs estão criando um campo de energia consciente capaz de tornar a sua prática mais fácil. Trabalhe com um mestre e com os amigos, visando transformar seu sofrimento em compaixão, paz e compreensão, fazendo isso de uma forma alegre e fácil. Isto é Esforço Correto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena

Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena ajudam a proteger o corpo, a mente, a família e a sociedade.

O primeiro Treinamento da Atenção Plena versa sobre proteger as vidas dos seres humanos, animais, vegetais e minerais. Proteger outros seres significa proteger a nós mesmos.

O segundo treinamento versa sobre impedir a exploração de seres humanos, de outros seres vivos e da natureza. Relaciona-se com a prática da generosidade.

O terceiro tem a ver com proteger crianças e adultos do abuso sexual, e preservar a felicidade dos indivíduos e das famílias. Muitas famílias já foram separadas devido à má conduta sexual. Quando praticamos o Terceiro Treinamento da Atenção Plena, protegemos a nós mesmos, as famílias e os casais, porque ajudamos os outros a se sentirem seguros.

O quarto Treinamento da Atenção Plena versa sobre praticar a fala amorosa e a escuta atenciosa.

O quinto Treinamento da Atenção Plena é sobre consumir de maneira consciente.

A prática dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena é uma forma de amor e de doação. Assegura a boa saúde e a proteção da nossa família e da sociedade. Se vivermos de acordo com eles, estaremos protegendo a nós mesmos e as pessoas que amamos.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Meio de Vida Correto

Para praticar o Meio de Vida Correto, é necessário encontrar uma forma de ganhar a vida que não represente uma transgressão aos ideais de amor e solidariedade. A forma pela qual você se sustenta pode ser uma expressão do seu ser mais profundo ou pode ser uma fonte de sofrimento para você e para os outros.

Os sutras costumam dizer que o Meio de Vida Correto é ganhar a vida sem precisar transgredir nenhum dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena: não vender armas, não vender escravos, não vender carne, álcool, drogas, nem venenos, não fazer profecias e nem dizer a sorte. Monges e monjas devem tomar cuidado para não fazerem aos leigos pedidos exagerados em relação aos quatro requisitos básicos, que são remédios, alimentos, roupas e hospedagem, e para não possuírem coisas materiais além de suas necessidades imediatas.


Ao procurarmos estar conscientes em todos os momentos, tentamos ter uma ocupação que seja benéfica para os seres humanos, os animais, as plantas e a terra ou, pelo menos, uma ocupação que prejudique pouco. Vivemos em uma sociedade na qual os empregos costumam ser difíceis de obter, mas se nosso emprego prejudicar a vida de alguma forma, então devemos procurar outro.
Nossa atividade diária tanto pode alimentar a compreensão e a solidariedade quanto pode ajudar a destruí-las. Temos sempre que ter consciência das consequências, imediatas ou remotas, do nosso trabalho.
Muitas indústrias modernas são prejudiciais aos seres humanos e à natureza, mesmo aquelas que produzem alimentos, e os pesticidas químicos e fertilizantes destróem o meio ambiente.

Por isso a prática do Meio de Vida Correto é muito difícil para os fazendeiros. Se não usarem produtos químicos, talvez tenham dificuldades para se manter comercialmente competitivos. Este é apenas um entre muitos exemplos. Ao exercer sua profissão, respeite os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Um trabalho que de alguma forma envolva morte, roubo, má conduta sexual, mentiras ou venda de drogas ou álcool não é um Meio de Vida Correto. Se sua empresa polui os rios ou o ar, trabalhar neste lugar não é um Meio de Vida Correto. Fabricar armas ou lucrar com as superstições dos outros também não são Meios de Vida Corretos. As pessoas têm superstições e acreditam que seu destino está escrito nas estrelas ou na palma das mãos. A verdade é que ninguém pode ter a certeza absoluta sobre o que acontecerá no futuro, e ao praticar a atenção plena adquirimos o poder de alterar o destino previsto pelos astrólogos. Além disso, as profecias contribuem para que fatos preditos acabem se tornando realidade.

Compor ou executar obras de arte também pode ser um meio de sustento. Um compositor, escritor, pintor, músico, bailarino ou ator têm efeito direto na consciência coletiva. Qualquer obra de arte é, em grande parte, um produto da consciência coletiva.
Portanto o artista deve praticar a atenção plena para que se trabalho ajude aqueles que entrem em contato com ele a praticar também a atenção plena. Um jovem que queria aprender a desenhar flores de lótus foi a um mestre e pediu para ser seu aprendiz. O mestre o conduziu até um lago de lótus e o convidou a se sentar ali. O jovem viu as flores desabrochando quando o sol estava alto e observou os botões se fechando quando a noite chegava. Na manhã seguinte, fez a mesma coisa. Quando uma flor de lótus murchou e suas pétalas caíram na água, ele observou o caule, o estame e o restante da flor, e depois passou a observar outra flor. Fez isso durante dez dias. No décimo primeiro dia, o mestre preguntou: “você está pronto?” e ele respondeu: “vou tentar”. O mestre lhe deu um pincel, e apesar de ter um estilo infantil, o jovem desenhou um lótus absolutamente lindo. Ele havia se tornado o lótus e o desenho simplesmente brotou de dentro dele.

A ingenuidade em matéria técnica era evidente, mas uma beleza profunda estava retratada ali. O Meio de Vida Correto não é apenas uma questão de escolha pessoal. Ele representa o nosso carma coletivo. Por exemplo, se sou um professor primário, e acho que ensinar as crianças a ter mais amor e compreensão é uma grande profissão, recusaria se alguém me pedisse para parar de ensinar e me transformasse, por exemplo, em um açougueiro. Mas ao meditar na interdependência das coisas, vejo que o açougueiro não é o único responsável pela matança de animais. Talvez a nossa opinião seja a de que o modo de vida do açougueiro é errado e o nosso é o certo, mas se nós não comêssemos carne ninguém precisaria matar animais. O Meio de Vida Correto, na verdade, é uma questão coletiva. O trabalho de cada pessoa afeta as outras. Os filhos do açougueiro podem se beneficiar com o professor, mas os filhos do professor, que comem carne, também são responsáveis pelo sustento do açougueiro.

Vamos imaginar que um fazendeiro que se sustenta vendendo carne bovina queira receber os Cinco Treinamentos da Plena Consciência. À luz do primeiro treinamento, ele começa a se perguntar o que tem feito para proteger a vida. Reflete que proporcionou ao seu gado as melhores condições possíveis de bem-estar, chegando mesmo a operar seu próprio matadouro, para que não houvesse crueldade desnecessária infligida aos animais na hora de abatê-los. Ele herdou a fazenda do pai e, além disso, tem uma família pra sustentar. É um dilema. O que fazer? Suas intenções são boas, mas ele herdou dos ancestrais não apenas a fazenda, mas também a força e a energia de seus hábitos.
Cada vez que uma vaca é morta, isso deixará uma impressão na sua consciência, que retornará a ele em sonhos, durante a meditação ou no momento da morte.
Tomar conta do gado da melhor maneira possível enquanto os animais estão vivos é de fato um Meio de Vida Correto. Ele deseja tratar seus animais com o máximo de bondade, mas também deseja a segurança proprocionada por uma renda estável para ele e para sua família.
Este homem deve continuar a contemplar todas as questões com profundidade, praticando continuamente a plena consciência. À medida em que sua compreensão se aprofunda, ele acabará encontrando uma forma de sair desta situação em que é obrigado a matar para viver.

Tudo o que fazemos é parte de nosso esforço de praticar o Meio de Vida Correto. Trata-se de um assunto muito mais amplo do que apenas o meio pelo qual obtemos nossa renda mensal. Talvez não possamos ter um Meio de Vida cem por cento correto, mas podemos decidir que vamos caminhar na direção da redução do sofrimento e do aumento de solidariedade e compaixão.

Milhões de pessoas, por exemplo, ganham a vida na indústria de armas, ajudando, direta ou indiretamente, a fabricar armamentos convencionais ou nucleares. Os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Inglaterra, a China e a Alemanha são os principais fornecedores de armas do mundo. A seguir, estas armas são vendidas para os países do Terceiro Mundo, onde o povo não precisa de armas e, sim, de comida.
Fabricar ou vender armas não é um Meio de Vida Correto, mas a responsabilidade por essa situação pertence a nós todos – políticos, economistas e consumidores. Nunca promovemos um grande debate nacional sobre esta questão, que é tão importante. Precisamos discutir isso, e precisamos também continuar a gerar novos empregos, para que ninguém seja pbrigado a viver dos lucros da fabricação de armas.
Se você exerce uma profissão em que há espaço para a realização de seu ideal de solidariedade, fique grato. E, por favor, ajude a criar empregos para que outros também possam viver de forma correta, simples e sadia. Use toda a sua energia para tentar melhorar a situação geral.

Praticar o Meio de Vida Correto significa praticar a Atenção Plena Correta. Cada momento em que o telefone tocar, considere-o como a campainha da atenção. Pare tudo o que estiver fazendo, inspire e expire conscientemente, e a seguir, atenda o telefone. A sua forma de atender o telefone personificará o Meio de Vida Correto.
Precisamos discutir entre nós como praticar a atenção plena em nosso local de trabalho e em todos os outros locais. Será que respiramos ao ouvir o telefone? Sorrimos quando estamos atendendo a outros? Caminhamos com atenção plena quando nos deslocamos de uma reunião para outra? Praticamos a Fala Correta? Fazemos um relaxamento total depois de muitas horas de trabalho pesado? Vivemos de forma a encorajar as pessoas a serem pacíficas e felizes, e a trabalhar para incentivar a paz e a felicidade? Estas perguntas são muito importantes, e são todas de ordem prática. Trabalhar para incentivar este tipo de pensamento e de ação, além da solidariedade, significa praticar o Meio de Vida Correto.

Se alguém tem uma profissão que contribui para que seres vivos sofram e oprimam os outros, isso acabará por contaminar a sua consciência, da mesma forma que quando poluímos o ar que depois iremos respirar. Muitas pessoas enriquecem vivendo de forma incorreta. Depois vão a um templo ou igreja e fazem doações. Estas doações se originam de sentimentos de culpa e medo, e não do desejo de fazer os outros felizes. Quando um templo ou igreja recebe grandes doações, as pessoas que recebem os recursos devem entender isso, e devem tentar ajudar na transformação do doador, mostrando-lhe como abandonar um Meio de Vida incorreto. Estas pessoas necessitam, mais do que qualquer outra coisa, dos ensinamentos do Buda.

À medida que vamos estudando e praticando o Nobre Caminho Óctuplo, começamos a entender que cada etapa do caminho está contida nos outros sete. Vemos também que cada etapa contém dentro de si as Nobres Verdades da existência, origem e cessação do sofrimento.

Ao praticar a Primeira Nobre Verdade, reconhecemos nosso sofrimento e o chamamos pelo seu nome correto – depressão, ansiedade, medo ou insegurança.
A seguir, olhamos de frente para ele, para descobrir em que se baseia, e isso representa a prática da Segunda Nobre Verdade. Essas duas práticas contêm os primeiros dois elementos do Nobre Caminho Óctuplo, ou seja, a Compreensão Correta e o Pensamento Correto.
Todos nós temos uma tendência a fugir do sofrimento, mas quando começamos a praticar o Nobre Caminho Óctuplo criamos coragem para passar a encarar o sofrimento de forma diferente. Utilizamos a Atenção Plena Correta e a Concentração Correta para observar o sofrimento de frente, com coragem. A prática de olhar com profundidade e enxergar com clareza representa a Compreensão Correta, que nunca nos mostrará uma única razão para o sofrimento, mas centenas de camadas de causas e condições: sementes que herdamos de nossos pais, avós e ancestrais;sementes dentro de nós nutridas por amizades ou pela situação econômica e política de nosso país; além de muitas outras causas e condições.

Agora chegamos ao ponto onde queremos fazer alguma coisa para diminuir o nosso sofrimento. Depois de identificar o que alimenta o nosso sofrimento, acharemos uma forma de deixar de ingerir esse nutriente, quer se trate de um comestível, de alimento dos sentidos, de nutriente recebido das nossas intenções, ou do alimento da nossa consciência.
Fazemos isso praticando a Fala Correta, a Ação Correta e o Meio de Vida Correto, sempre lembrando que a Fala Correta significa ouvir com atenção. Para isso nos guiamos pelos Treinamentos da Atenção Plena. Ao praticar os treinamentos da Atenção Plena entenderemos que devemos falar, agir e trabalhar sempre com a Atenção Plena Correta.
A Atenção Plena Correta nos avisa quando algo está em desacordo com a Fala Correta ou com a Ação Correta. Quando praticamos a Atenção Plena Correta e o Esforço Correto, o resultado é a Concentração Correta, o que fará emergir a compreensão ou, em outras palavras, a Compreensão Correta.
Na verdade não é possível praticar uma única etapa do Nobre Caminho Óctuplo sem praticar todos os outros sete. Essa é a natureza interdependente de tudo, que também se manifesta nos ensinamentos deixados por Buda.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Ação Correta

Ação Correta significa Ação Correta do corpo. É a prática de entrar em contato com o amor e evitar prejudicar os outros, praticando a não-violência consigo mesmo e com outras pessoas. A base da Ação Correta é agir sempre com atenção plena.

A Ação Correta está ligada a quatro treinamentos (o primeiro, o segundo, o terceiro e o quinto) dentre os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. O Primeiro versa sobre a reverência pela vida: "Cônscio do sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar a compaixão e a aprender formas de proteger as vidas das pessoas, animais, plantas e minerais. Estou decidido a não matar, não deixar que outros matem, e não dar apoio a qualquer ato desta natureza, nem em meus pensamentos nem em meu estilo de vida."

Nós matamos todos os dias em função da forma pela qual comemos, bebemos e usamos a terra, o ar e a água. Achamos que não matamos, mas não é verdade. A Ação Correta nos ajuda a ter consciência disto, e a contribuir para o fim da matança, salvando vidas.

O Segundo Treinamento da Atenção Plena tem a ver com generosidade: "Cônscio do sofrimento causado pela exploração, injustiça social, roubo e opressão, comprometo-me a cultivar a bondade e a aprender formas de contribuir para o bem estar de pessoas, animais, plantas e minerais. Praticarei a generosidade ao compartilhar meu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que realmente necessitem. Estou decidido a não roubar nem possuir qualquer coisa que deva pertencer a outra pessoa. Respeitarei a propriedade alheia, mas impedirei que haja o lucro de alguns com a dor humana ou com o sofrimento das outras espécies deste planeta."

Este aprendizado nos ensina a não tocar no que não é nosso e a não explorar os outros. Ele também nos incentiva a viver de forma a contribuir para a justiça e o bem estar sociais. Temos que aprender a viver com simplicidade, e não tentarmos nos apossar de mais do que nos cabe. Quando empreendemos qualquer ato que promova a justiça social, esta é uma Ação Correta.

O Terceiro Treinamento da Atenção Plena lida com responsabilidade sexual. "Cônscio do sofrimento causado pela má conduta sexual, comprometo-me a cultivar a responsabilidade e a aprender meios de proteger a segurança e a integridade de indivíduos, casais, famílias e da sociedade. Estou decidido a não ter relações sexuais sem amor e sem compromisso. Para preservar a minha felicidade e a dos outros, respeitarei os compromissos assumidos por mim e também os compromissos assumidos pelos outros. Farei tudo o que puder para proteger as crianças do abuso sexual e impedir que casais e famílias se separem devido à má conduta sexual."

A solidão não pode ser aliviada pela junção de dois corpos, a menos que também haja boa comunicação, compreensão e bondade. A Atenção Plena Correta nos ajuda a proteger os outros e a nós mesmos, inclusive as crianças, de um sofrimento maior. O mau comportamento sexual gera enorme sofrimento. Para proteger a integridade das famílias e indivíduos, agiremos sempre de forma responsável e encorajaremos os outros a fazer o mesmo. Com este aprendizado, protegeremos a nós, os que nos cercam, e toda a espécie humana, inclusive as crianças. Quando a Atenção Plena Correta irradia sua luz em nossa vida cotidiana, conseguimos manter esta prática de forma contínua.

A má conduta sexual já separou inúmeras famílias. Muito sofrimento é gerado porque as pessoas não praticam a responsabilidade sexual. Uma criança vítima de abuso sexual sofrerá por toda a sua vida. Aqueles que passaram por esta experiência podem se tornar bodhisattvas, ajudando a muitas crianças. Nossa mente amorosa pode transformar nossa dor, tornando-nos capazes de compartilhar o que aprendemos com outros. Esta é a Ação Correta, que liberta tanto a nós quanto os que nos cercam. Quando tentamos ajudar os que estão ao nosso redor, ajudamos também a nós mesmos.

O Quinto Treinamento da Atenção Plena nos incentiva a comer, beber e consumir conscientemente. Ele está vinculado às Quatro Nobres Verdades e a todos os elementos do Nobre Caminho Óctuplo, em especial à Ação Correta: "Cônscio do sofrimento causado pelo consumo inconsciente e desatento, comprometo-me a cultivar a boa saúde, tanto física como mental, em mim, em minha família e na sociedade, tendo consciência do que irei comer, beber e consumir. Comprometo-me a ingerir apenas coisas capazes de preservar a paz, o bem-estar e a alegria de meu corpo e minha consciência, bem como do corpo e da consciência da família e sociedade. Tenho a firme intenção de não usar álcool ou outros intoxicantes, nem ingerir alimentos ou praticar diversões que contenham toxinas, como por exemplo certos programas de TV, revistas, livros, filmes e conversas. Sei que ao contaminar meu corpo ou minha consciência com estes venenos estou traindo meus ancestrais, meus pais, minha sociedade e as gerações futuras. Comprometo-me a trabalhar para transformar a violência, o medo, a raiva e a confusão existentes dentro de mim e na sociedade, praticando uma dieta que ajuda a mim e também à sociedade. Compreendo que uma boa dieta é fundamental para a transformação do indivíduo e da sociedade."

Ação Correta significa fornecer ao corpo e à mente apenas nutrientes sadios e seguros. Ao comer e beber de modo consciente, evitamos tudo o que possa gerar toxinas, bem como álcool ou drogas, tanto em nível individual quanto familiar e social. Vamos consumir sempre com consciência, para que a vida se torne melhor para todos. Praticaremos o consumo consciente para proteger nosso corpo e nossa mente da ingestão de toxinas. Certos programas de televisão, livros, revistas e conversações têm o dom de introduzir a violência, o medo e o desespero em nossas consciências. Precisamos praticar o consumo consciente para proteger o corpo, a mente, e também a família e a sociedade.

Quando nos propomos a não beber álcool, estamos nos protegendo mas também estamos protegendo a família e a sociedade. Uma mulher de Londres me disse: "Venho bebendo dois copos de vinho por dia há mais de vinte anos, e isso nunca me fez mal. Por que deveria abandonar este hábito?" Eu respondi: "É verdade que dois copos por dia não lhe fazem mal, mas como sabe que isso não prejudica seus filhos? Você pode não ter o gene do alcoolismo, mas talvez um dos seus filhos o tenha. Se abandonar o vinho fará um favor não só a si mesma, mas aos seus filhos e à sociedade." Ela compreendeu, e na manhã seguinte recebeu formalmente os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Esse é o trabalho de um bodhisattva, fazer as coisas não por si mesmo, mas por todas as outras pessoas.

O Ministério da Saúde francês aconselha as pessoas a não beberem demais. Eles anunciam na televisão: "Um copo não faz mal, mas três copos são um convite para o desastre." Eles querem que as pessoas sejam moderadas ao beber. Mas se o primeiro copo não for bebido, não haverá o terceiro. Evitar o primeiro copo é a melhor proteção que existe, porque você protege a si mesmo e todos nós ao mesmo tempo. Quando consumimos conscientemente, estamos protegendo nosso corpo e mente, bem como o corpo e a mente da família e da sociedade. Sem o Quinto Treinamento da Atenção Plena, como poderemos melhorar nossa sociedade? Quanto mais consumirmos, mais sofreremos, e mais faremos os outros sofrerem. O consumo consciente parece ser a única forma de sair dessa situação, fazendo cessar a destruição de nossos corpos,. nossas mentes bem como do corpo e da mente sociais.

Observando com profundidade, enxergamos a natureza intercambiável dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena e do Nobre Caminho Óctuplo. Usamos a Atenção Plena Correta para verificar se nossa comida, bebida e consumo estão de acordo com a Ação Correta. Tanto a Compreensão Correta quanto o Pensamento Correto e a Fala Correta precisam estar presentes para que possamos praticar o Quinto Treinamento da Atenção Plena. Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena são interpenetrados por todos os elementos do Nobre Caminho Óctuplo, em especial a Ação Correta.

A Ação Correta se baseia na Compreensão Correta, no Pensamento Correto e na Fala Correta, e depende do Meio de Vida Correto. Aqueles que ganham o seu sustento fabricando armas, tirando a oportunidade de os outros viverem, destruindo o meio ambiente, explorando a natureza ou as pessoas, ou fabricando coisas que produzem toxinas, talvez ganhem muito dinheiro, mas estão praticando o meio de vida errôneo. Temos que estar conscientes para podermos evitar as ações incorretas. Se não tivermos a Compreensão Correta, o nosso esforço pode estar produzindo resultados não desejados.

Um mestre experiente só precisa observar o praticante caminhando ou tocando um sino para saber quanto tempo ele está na prática do caminho. O mestre observa a Ação Correta do praticante e vê todas as outras etapas que estão contidas nela. Assim também, se observarmos com atenção uma pessoa em relação a uma etapa do caminho, podemos avaliar a sua realização em relação às demais etapas.

Existem muitas coisas que podem ser feitas para se praticar a Ação Correta. Por exemplo, proteger vidas, praticar a generosidade, comportar-se de forma responsável e consumir conscientemente. A base da Ação Correta é a Atenção Plena Correta.

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bodhisattva

No Budismo Theravada o termo "bodhisatta" é usado para designar uma nova pessoa antes de sua iluminação mas que descobriu o caminho para a libertação. Uma pessoa que acordou para os ensinamentos mas ainda está sujeito ao nascimento, doença, morte, tristeza, profanação e ilusão.

No Budismo Mahayana, por outro lado, considera o "bodhisattva" como uma pessoa que já tem um considerável grau de esclarecimento e procura usar sua sabedoria para ajudar outros seres humanos a tornarem-se livres. Nesse entendimento da palavra o bodhisattva é uma pessoa sábia que usa meios hábeis para levar os outros a ver os benefícios da virtude e do cultivo da sabedoria.

sábado, 15 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Pensamento Correto

Quando a Compreensão Correta se toma parte integrante de nosso ser, o resultado é o Pensamento Correto. Necessitamos da Compreensão Correta como alicerce do pensamento. E se treinarmos o Pensamento Correto, nossa Compreensão Correta irá se aprimorar. O processo de pensar é a fala da mente. O Pensamento Correto torna a nossa fala mais clara e mais benevolente. Como o pensamento costuma conduzir à ação, o Pensamento Correto é fundamental para nos conduzir ao caminho da Ação Correta.

O Pensamento Correto reflete a forma como as coisas são. O pensamento errôneo nos faz enxergar as coisas "de cabeça para baixo". Mas praticar o Pensamento Correto não é nada fácil. O que costuma ocorrer é que nossa mente está pensando uma coisa enquanto o corpo está fazendo outra. Corpo e mente não funcionam de forma unificada. Para isso, a respiração consciente é um elemento importante de ligação. Quando nos concentramos na respiração, estamos unindo o corpo à mente e tornando-os íntegros de novo.

Quando Descartes disse: "Penso, logo existo", ele estava afirmando que podemos provar nossa própria existência através do pensamento Eu concluiria o exato oposto: "Penso, portanto não existo."

Enquanto mente e corpo não funcionarem unificadamente, vamos continuar nos perdendo de nós mesmos e não poderemos dizer que estamos realmente aqui, presentes. Se praticarmos a respiração conscientemente, entrando em contato com os elementos curadores e renovadores que já existem dentro de nós e ao nosso redor, conseguiremos encontrar paz e estabilidade. A respiração consciente nos ajuda a parar de nos preocupar com as tristezas do passado e as ansiedades do futuro. Ajuda-nos a entrar em contato com a vida no momento presente. A maior parte de nosso pensar é totalmente desnecessária, porque ele é composto de pensamentos limitados e dotados de pouca compreensão.

Às vezes parece que há um gravador dentro de nossa cabeça - ligado dia e noite - e não conseguimos desligá-lo. Ficamos preocupados, tensos e temos pesadelos. Quando praticamos a atenção plena, começamos realmente a ouvir pela primeira vez a fita que está no gravador de nossa mente, e então percebemos quais os pensamentos úteis e quais os inúteis.

O pensamento tem duas partes - o pensamento inicial e aquele que se desenvolve a partir dele. Um pensamento inicial é algo como "esta tarde tenho que entregar o trabalho de literatura". O desenvolvimento deste pensamento pode ser perguntarmo-nos se fizemos o trabalho corretamente, se deveríamos reler a redação mais uma vez antes de entregar, se o professor vai perceber que entregamos atrasados etc.

No primeiro estágio da concentração meditativa, os dois tipos de pensamento se fazem presentes. No segundo estágio, nenhum dos dois aparece. Nessa altura, teremos um contato mais profundo com a realidade, e estaremos livres de palavras e conceitos. No ano passado, ao passear em um bosque com um grupo de crianças, percebi que uma das meninas estava absorta em seus pensamentos.

Finalmente, ela me perguntou: "Vovô monge, de que cor é a casca daquela árvore?" "É da cor que você a vê", respondi eu. Eu queria que ela penetrasse naquele mundo maravilhoso que estava à sua frente, e não desejava colocar mais nenhum conceito em sua cabeça.

Existem quatro práticas relacionadas ao Pensamento Correto:

(1) "Você tem certeza?" - Se houver uma corda em seu caminho e você enxergar uma cobra, o medo inevitavelmente surgirá. Quando mais deturpada for sua percepção, mais incorreto será seu pensamento resultante. Por favor, anote as palavras "Você tem certeza?" em uma grande folha de papel e pendure em algum lugar bem visível, onde não possa deixar de ver. E repita esta pergunta inúmeras vezes. As percepções errôneas geram pensamentos incorretos e muito sofrimento desnecessário.

(2) "O que estou fazendo?" - Às vezes pergunto a um dos meus alunos o que ele está fazendo, para ajudá-lo a largar os pensamentos sobre o passado ou sobre o futuro e retornar ao momento presente. Pergunto para ajudá-lo a existir - aqui e agora. Para responder, ele só precisa sorrir. Um sorriso é a única coisa que demonstraria sua real presença.

Quando nos perguntamos o que estamos fazendo, fica mais fácil vencer o hábito de querer terminar tudo rapidamente. Sorria para si mesmo e diga: "Lavar este prato é a coisa mais importante de minha vida." Quando se perguntar, "O que estou fazendo?", reflita seriamente sobre a questão. Caso os pensamentos o arrastem para outras paragens, você precisa de mais atenção plena para impedir que isso aconteça. Quando você está realmente presente, lavar os pratos pode ser uma experiência profunda e extremamente agradável. Mas se você lava os pratos pensando o tempo todo em outra coisa, está perdendo tempo e provavelmente deixando de lavar bem os pratos. Se não estiver presente, nem que lave 84.000 pratos não terá mérito.

O imperador Wu perguntou a Bodhidharma, o fundador do zen budismo na China, quanto mérito ele havia conquistado ao construir templos por todo o país. Bodhidharma respondeu: "Mérito nenhum." Mas se você lavar um único prato com atenção plena, se construir um pequeno templo enquanto permanece inteiramente no momento presente - sem querer estar em nenhum outro lugar, nem desejoso de fama ou reconhecimento -, o mérito deste ato será enorme, e você se sentirá feliz. Pergunte sempre a si mesmo: "O que estou fazendo?" Quando você aplica a plena atenção ao que está fazendo, sem ser arrastado por seus pensamentos, torna-se uma pessoa feliz e um instrumento de ajuda para os outros.

(3) "Alô força do hábito!" - Nós tendemos a ser fiéis aos nossos hábitos, mesmo aqueles que provocam sofrimento. O hábito de trabalhar demais é um bom exemplo. No passado, nossos ancestrais precisavam trabalhar o tempo todo simplesmente para colocar comida na mesa. Mas hoje em dia temos uma forma de trabalhar compulsiva, que nos impede de ter um contato maior com a vida. Pensamos em trabalho o tempo todo, e não nos concedemos tempo nem para respirar. Precisamos encontrar momentos para contemplar as flores de cerejeira e para tomar nosso chá com atenção plena. Nossa forma de agir depende da forma de pensar, e a forma de pensar depende dos hábitos. Quando entendemos isso, só precisamos dizer: "Alô força do hábito!", e nos tornarmos amigos dos nossos padrões de pensamento e de ação. Quando aceitamos os pensamentos que estão enraizados dentro de nós sem nos sentirmos culpados, eles perderão grande parte de seu poder sobre nós. O Pensamento Correto sempre conduz à Ação Correta.

(4) Nossa "mente de amor" é o desejo profundo de cultivar a compreensão dentro de nós, para poder ser um veículo de felicidade para os outros. É a força motivadora por trás da vida consciente. Tendo a "mente de amor" como alicerce dos pensamentos, tudo o que fizermos ou dissermos ajudará os outros a se libertarem. O Pensamento Correto acaba produzindo o Esforço Correto.

O Buda nos ensinou muitas formas de transformar os pensamentos destrutivos. Uma das formas, disse ele, é substituir um pensamento não-saudável por outro saudável, simplesmente "trocando a cavilha", da mesma forma que um marceneiro substitui uma cavilha podre martelando uma nova por cima. Se somos constantemente invadidos por pensamentos pouco saudáveis, precisamos aprender a trocar as cavilhas, substituindo este tipo de pensamentos por outros mais saudáveis. O Buda comparou o pensamento não-saudável a uma cobra morta enrolada no pescoço. Ele disse que a forma mais fácil de impedir que este tipo de pensamento nos invada é viver em um ambiente saudável, por exemplo, numa comunidade que pratica o viver consciente. Com a ajuda e a presença dos irmãos e irmãs de Darma, é fácil manter o Pensamento Correto. Viver em um bom ambiente é a melhor medicina preventiva.

O Pensamento Correto é aquele que está em conformidade com a Compreensão Correta. É um mapa que pode nos ajudar a encontrar o caminho. Mas quando chegarmos ao nosso destino, precisaremos deixar o mapa de lado e mergulhar na realidade. "Pensar sem pensamentos" é uma famosa frase zen. Quando praticamos a Compreensão Correta e o Pensamento Correto, aprendemos a viver no momento presente, entrando em contato com as sementes da alegria, da paz e da liberação, curando e transformando nosso sofrimento, e aprendendo a estar disponíveis para os outros.

“A Essência dos ensinamentos de Buda”

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Compreensão correta

A primeira prática do Nobre Caminho Óctuplo é a Compreensão Correta.
Compreensão Correta é, antes de mais nada, uma profunda compreensão das Quatro Nobres Verdades - o sofrimento, a sua geração, o fato de que ele pode ser transformado e o caminho de transformação. Buda afirmou que a Compreensão Correta consiste em ter fé e confiança no fato de que existem pessoas que foram capazes de transformar sua dor .Além disso, Compreensão Correta é saber distinguir quais foram os alimentos ingeridos por nós que ocasionaram aquilo que nos acontece.

Compreensão Correta é a capacidade de saber diferenciar as raízes sadias das não-sadias. Nas profundezas de nossa consciência existem raízes sadias e não-sadias - ou sementes. Se você é uma pessoa leal, é porque a semente da lealdade está dentro de você. Mas não pense que a semente da traição também não esteja presente. Se você viver em um ambiente favorável, onde a semente da lealdade é regada, você se tornará uma pessoa leal. Mas se a semente da traição for regada, você poderá trair até mesmo aqueles a quem ama. Talvez se sinta culpado, mas se a semente da traição em você for realmente fortalecida, você será capaz de trair qualquer um.

A prática da atenção plena nos ajuda a identificar todas as sementes que jazem em nossa consciência armazenadora e regar apenas aquelas que são saudáveis. Quando uma determinada pessoa chega até nós, pode ocorrer que o simples fato de olhar para ela nos incomode. Mas uma outra pessoa chega, e imediatamente gostamos dela. Algo em cada uma dessas pessoas toca uma semente que reside dentro de nós. Se amamos muito nossa mãe, mas ficamos tensos cada vez que pensamos em nosso pai, é natural que ao ver uma jovem que se parece com nossa mãe tenhamos prazer, e ao avistar um homem que evoca a memória de nosso pai, nossa reação seja de desconforto.

Desta maneira, é possível "enxergar" as sementes que carregamos - as de amor por nossa mãe e as de dor em relação ao nosso pai. Quando tomamos consciência da existência destas sementes em nosso reservatório, não iremos nos surpreender com nossas próprias reações nem com o comportamento dos outros.

A semente do Estado de Buda, que é a capacidade de despertar e compreender as coisas como elas são, reside em cada um de nós. Quando juntamos as palmas de nossas mãos e reverenciamos alguém, estamos reconhecendo a semente do Estado de Buda na outra pessoa. Quando reverenciamos uma criança, estamos ajudando esta criança a crescer de forma bela, cheia de autoconfiança. Se você plantar milho, o que vai crescer é milho, se plantar trigo, crescerá trigo. Se você agir de forma saudável, será feliz. Se agir de forma pouco saudável, estará regando em si mesmo as sementes do desejo, da raiva ou da violência.

Compreensão Correta é reconhecer quais são as sementes saudáveis e encorajar sua irrigação. Isto se chama de "toque seletivo". Precisamos discutir e compartilhar essas questões uns com os outros, para aprofundarmos nossa compreensão desta prática e também da prática dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena, especialmente o quinto, que se relaciona com os "alimentos" que ingerimos.

Nossas visões estão fundamentadas em nossas percepções. Em chinês, a parte superior do ideograma que representa a percepção quer dizer "marca," "sinal" ou "aparência", e a parte inferior é "mente" ou "espírito". As percepções sempre têm uma "marca", e freqüentemente esta marca é ilusória. O Buda nos aconselhou a não nos deixarmos enganar por aquilo que percebemos. Ele disse a Subhuti: "Onde existe percepção, existe ilusão." O Buda também nos disse repetidamente que a maioria de nossas percepções é errônea, e que grande parte de nosso sofrimento se origina das percepções errôneas. Devemos nos perguntar constantemente: "Será que tenho certeza?" Até podermos enxergar com clareza, as percepções errôneas irão nos impedir de ter a Compreensão Correta.

Perceber sempre significa perceber algo, Nós acreditamos que o objeto de nossa percepção é externo a nós, mas isso não é verdade. Quando percebemos a lua, a lua está dentro de nós. Quando sorrimos para o amigo, o amigo está dentro de nós, porque é o objeto de nossa percepção.

Quando percebemos uma montanha, a montanha é o objeto de nossa percepção. Quando percebemos a lua, é a lua que é o objeto de nossa percepção. Ao dizermos: "Posso ver a minha consciência na flor", significa que podemos ver nela as nuvens, o sol, a terra e os minerais que ela contém. Mas como podemos ver nossa consciência na flor? A flor é a nossa consciência. Ela é o objeto de nossa percepção. Ela é a nossa percepção. Perceber quer dizer perceber algo, ou seja, significa a emergência daquele que percebe e daquele que é percebido. A flor que contemplamos é parte de nossa consciência. A idéia de que nossa consciência é externa à flor deve ser eliminada. É impossível existir um sujeito sem objeto. É impossível remover um e ficar com o outro.

A origem de nossa percepção, ou nossa forma de ver, está no conteúdo de nossa consciência. Quando dez pessoas olham para uma nuvem, haverá dez percepções diferentes da mesma nuvem. Se vamos enxergar um cachorro, um martelo ou um casaco dependerá inteiramente de nossa mente - nossa tristeza, nossas lembranças, nossa raiva. Nossas percepções carregam consigo todos os erros da subjetividade. Por isso elogiamos, culpamos, condenamos ou nos queixamos, dependendo das percepções. Só que nossas percepções são formadas pelas aflições - desejo, raiva, ignorância, visões errôneas e preconceitos. Ser feliz ou sofrer depende inteiramente das nossas percepções. É importante examinar as nossas percepções e desvendar sua origem.

Nós temos uma idéia do que é felicidade. Acreditamos que apenas certas condições nos farão felizes. Mas muitas vezes é exatamente esta idéia da felicidade que nos impede de sermos felizes. Precisamos conhecer nossas percepções para podermos nos libertar delas. Neste caso, o que no passado foi uma percepção, torna-se um insight, uma realização do caminho. Isto não é nem percepção nem não-percepção, mas a visão clara, que vê as coisas como são.

Nossa felicidade, bem como a felicidade daqueles que nos cercam, depende do nosso grau de Compreensão Correta. Entrar em contato com a realidade de forma profunda, ou saber o que ocorre dentro ou fora de nós, é a maneira para nos libertarmos do sofrimento causado pelas percepções errôneas. A Compreensão Correta não é uma ideologia, um sistema ou um caminho. É a compreensão da realidade da vida, uma compreensão viva que nos enche de paz, amor e entendimento.

Às vezes observamos nossos filhos fazendo coisas que sabemos que vão lhes trazer sofrimento no futuro, mas quando tentamos dizer isso a eles, não nos ouvem. Tudo o que podemos fazer é estimular neles as sementes da Compreensão Correta, e mais tarde, nos momentos mais difíceis, tentar oferecer algum beneficio ou orientação. Não é possível explicar uma laranja para alguém que nunca provou uma. Podemos descrevê-la muito bem, mas não somos capazes de dar aos outros a experiência direta. A pessoa tem que experimentar por si mesma.

Quando a experiência existe, se dissermos uma única palavra, ela atinge a pessoa. A Compreensão Correta não pode ser descrita, só podemos apontar a direção. Ela também não pode ser transmitida por um mestre. Um mestre pode nos ajudar a identificar as sementes da Compreensão Correta que já possuímos em nosso jardim, e também pode nos ajudar a ter confiança para praticar, inserindo esta semente no solo de nossa vida cotidiana. Mas o jardineiro somos nós. Temos que aprender a regar as boas sementes para que desabrochem em flores de Compreensão Correta. A forma de regar as boas sementes é viver com atenção plena - respirar consciente, caminhar consciente e viver cada momento de nossa vida em plena atenção.

Se você for a São Paulo por um dia, terá uma idéia de São Paulo, mas esta idéia não corresponderá exatamente a São Paulo. Você dirá: "Eu estive em São Paulo", mas na verdade você só esteve em sua idéia de São Paulo. A sua idéia pode até ser um pouco mais completa do que a de alguém que nunca esteve lá, mas continua sendo apenas uma idéia. Não é a verdadeira São Paulo. Seu conceito sobre a realidade não é a realidade em si. Quando ficamos presos a conceitos e percepções, perdemos contato com a realidade.

Praticar é ir além das idéias, para chegar à coisa em si. A não-idéia é o não-conceito. Enquanto houver uma idéia, não haverá realidade nem verdade. A expressão "não-idéia" na verdade significa a não existência de idéias ou de conceitos errôneos. Não significa ausência de atenção plena. Por causa da atenção plena, nós sabemos quando algo está errado e quando algo está certo.

Por exemplo, se estamos praticando a meditação sentados e vemos uma tigela de sopa de tomate em nossa mente, pensamos que isso é uma prática incorreta, porque naquele momento deveríamos estar prestando atenção à respiração. Mas se praticarmos a atenção plena, diremos: "Estou respirando e ao mesmo tempo estou pensando em sopa de tomate." Isto é a verdadeira Atenção Plena Correta. Estar certo ou estar errado não é um fenômeno objetivo, mas totalmente subjetivo.

Falando de forma relativa, existem pontos de vista corretos e incorretos. Mas se olharmos com mais profundidade, veremos que qualquer ponto de vista é incorreto. Nenhum ponto de vista pode realmente representar a verdade. Ele é o inverso, ou seja, a visão a partir de um único ponto, por isso é chamado de ponto de vista. Se nos posicionarmos de forma diferente, passaremos a ver as coisas de outra forma, e acharemos que nosso primeiro ponto de vista não estava certo. O budismo não é uma coleção de pontos de vista. É uma prática que nos ajuda a eliminar os pontos de vista incorretos. A qualidade de nossos pontos de vista sempre pode ser melhorada. Olhando a partir da realidade maior, a Visão Correta é a ausência de todos os pontos de vista.

Quando começamos a praticar, nosso ponto de vista é uma idéia vaga sobre os ensinamentos. Mas conhecimento conceitual nunca é suficiente. As sementes da Compreensão Correta, assim como as sementes da Budeidade, estão dentro de nós, obscurecidas por muitas camadas de ignorância, tristeza e desapontamento. Temos que praticar. No processo de aprender, refletir e praticar, nosso ponto de vista vai se tornando cada vez mais sábio, porque baseado na experiência concreta. Quando praticamos a Atenção Plena Correta, constatamos que a semente da Budeidade está em todas as pessoas, inclusive em nós mesmos. Isto é a Compreensão Correta. Algumas vezes ela é descrita como a Mãe de Todos os Budas, a energia de amor e compreensão que tem o poder de nos libertar. Quando praticamos o viver consciente nossa Compreensão Correta desabrocha, e todos os outros elementos do caminho que existem dentro de nós desabrocham também.

As oito práticas do Nobre Caminho Óctuplo alimentam-se umas às outras. À medida que nossa visão vai se tornando mais "correta", os outros elementos do Caminho Óctuplo também se aprofundam dentro de nós. A Fala Correta está baseada na Compreensão Correta, e também alimenta a Compreensão Correta. A Atenção Correta e a Concentração Correta, por sua vez, fortalecem e aprofundam a Compreensão Correta. A Ação Correta, para poder existir, precisa estar baseada na Compreensão Correta. O Meio de Vida Correto esclarece e refina a Compreensão Correta. A Compreensão Correta é tanto causa quanto efeito, em relação a todos os outros elementos do caminho.

"A Essência dos ensinamentos de Buda"

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Nobre Caminho Óctuplo - Fala Correta

Meu mestre dizia, "Se você não consegue controlar a sua boca, não existe esperança de que irá controlar a sua mente." Por essa razão a fala correta é tão importante na prática diária.

A Fala Correta explicada em termos negativos significa evitar quatro tipos de linguagem que são prejudiciais: mentiras (palavras que são ditas com a intenção de distorcer a verdade); maldosas (palavras ditas com a intenção de separar as pessoas); grosseiras (palavras ditas com a intenção de ferir outra pessoa emocionalmente); e frívolas (palavras ditas sem a intenção de algum significado).

Observe o foco na intenção: é nesse ponto que a prática da fala correta cruza com o treinamento da mente. Antes de você falar, você foca no porquê você quer falar.
Isso ajuda você a tomar contato com todas as maquinações que estão ocorrendo no comitê de vozes que dirigem a sua mente.
Se você percebe alguma motivação inábil se ocultando por detrás das decisões do comitê, você poderá vetá-las.
Como resultado você estará mais atento consigo mesmo, mais honesto consigo mesmo, mais firme consigo mesmo.
Você também evita dizer coisas das quais se arrependerá mais tarde. Dessa forma você fortalece qualidades da mente que lhe auxiliarão na meditação, ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de recordação dolorosa que atrapalharia a atenção no momento presente, quando chegar a ocasião de meditar.

Em termos positivos, a fala correta significa falar de forma honesta, harmoniosa, confortante e digna de ser levada a sério. Quando você pratica essas formas positivas de linguagem correta as suas palavras se convertem em bênçãos para os outros.
Em resposta, as outras pessoas irão prestar mais atenção àquilo que você tem a dizer e provavelmente irão responder da mesma forma. Isso lhe dá uma idéia do poder das suas ações: a maneira como você age no momento presente de fato molda o mundo das suas experiências. Você não precisa ser uma vítima de eventos passados.

Para muitos de nós a parte mais difícil da prática da fala correta se encontra na forma como expressamos nosso senso de humor.
Especialmente quando damos boas gargalhadas através do exagero, sarcasmo, estereótipos e pura bobagem - todos exemplos clássicos de linguagem incorreta.
Se as pessoas se acostumam com esse tipo de humor negligente, elas irão parar de ouvir com cuidado aquilo que temos a dizer.
Dessa forma vulgarizamos o nosso discurso. Na verdade já existe ironia suficiente no mundo portanto, não precisamos exagerar ou ser sarcásticos. Os melhores humoristas são aqueles que simplesmente nos fazem ver diretamente as coisas como elas são.

Expressar o nosso humor de forma honesta, útil e sábia pode exigir que pensemos e nos esforcemos, mas quando nos tornamos mestres nesse tipo de sutileza nos damos conta de que o esforço valeu a pena. Aguçamos a nossa mente e melhoramos a nossa linguagem. Dessa forma, mesmo as nossas piadas se tornam parte da nossa prática: uma oportunidade para desenvolver qualidades positivas na mente e oferecer algo de valor intelectual para as pessoas que nos rodeiam.

Assim, tenha muito cuidado com aquilo que você diz - e com o porquê você o diz. Ao fazer isso, descobrirá que uma boca fechada não é necessariamente um erro.

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Poder do pensamento

Bons pensamentos atraem pessoas boas com suas boas energias...