terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A cegueira do coração

Os Sentimentos Humanos certo dia reuniram-se para brincar.

Depois de o Tédio ter bocejado três vezes porque a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava a tomar conta, a Loucura propôs que brincassem às escondidas.

A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria fazer batota.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas a um canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de se esconder não tinha graça nenhuma, A Arrogância fez cara de desdém, pois a ideia não tinha sido dela e o Medo preferiu não se arriscar: - “Ah, vamos deixar tudo como está.” E como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.

A primeira a esconder-se foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris e a Inveja ocultou-se juntamente com a Hipocrisia, que, sorrindo fingidamente atrás de uma árvore, estava a abominar aquilo tudo.

A Generosidade quase não se conseguia esconder porque era grande e ainda queria abrigar meio mundo. A Culpa ficou paralisada, pois já estava mais do que escondida em si mesma.

A Sensualidade estendeu-se ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem parva nem fingida. O Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia mais ninguém.

A Mentira disse à Inocência que se ia esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada. A Paixão meteu-se na cratera de um vulcão activo e o Esquecimento já nem sabia o que estavam ali a fazer. Depois de contar até 99 a Loucura começou a procurar.

Achou um. Achou outro. E outro.

Mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos perfurados pelos espinhos.

A Loucura tomou-o pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo.

Desde então o Amor é cego e a Loucura acompanha-o.

Juntos fazem a vida valer a pena – mas isso não é coisa para os medrosos nem para os apáticos, que perdem a felicidade no matagal dos preconceitos, onde rosnam os deuses melancólicos da acomodação.

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